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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de janeiro de 2022


“Uma Viagem das Arábias” de Leonor Xavier (Clube do Autor, 2011) é um fantástico relato de uma viagem sentida e vivida pela nossa querida e saudosa amiga.

 


A VIDA É UM MILAGRE
Leonor Xavier dizia: “a vida é um milagre, que procuro aproveitar, mas o forte é a minha relação de pasmo, de um imenso espanto e de gratificação” Era assim a Leonor. Um encontro em que estivesse era sempre uma oportunidade de alegria e de recordação. Tinha um especial talento para a generosidade e para fazer amigos. E gostava de lembrar a afirmação de Agustina Bessa-Luís: “a formosura do mundo é meu tesouro, pois dela faço torres de pensamento. E a grandeza do mundo não me tolhe, porque maior que tudo é a realidade de um coração que ama e sente”. Julgo que está aqui bem expresso aquilo em que sinceramente acreditava. Conhecia-a ainda antes de Direito, nas disciplinas económicas que me interessaram. Quando reencontrei Leonor foi no seu regresso do Brasil, em 1987, havia amigos comuns, trabalhos em conjunto, um grande entusiasmo - Helena e Alberto Vaz da Silva, António Alçada Baptista, Graça Morais, Raul Solnado, Agostinho da Silva, Ana Vicente, Eduardo Prado Coelho, Teresa Belo e mais recentemente José Tolentino Mendonça – o jornalismo cultural, a literatura, as artes, a poesia, as iniciativas do Centro Nacional de Cultura. Lembro-me de um tempo em que vinha à baila a palavra “escreviver”, na expressão de David Mourão-Ferreira. E Leonor tantas vezes repetia que assim se sentia, a saborear os acontecimentos da vida e o prazer de animar mil conversas, em tertúlias de geometria variável que eram sempre um motivo de novos temas e encontros… Era um tempo em que procurávamos que a afirmação de Emmanuel Mounier “o acontecimento é o nosso mestre interior” se tornasse uma verdadeira realidade. E o exemplo de Tristão de Athaíde ou Alceu Amoroso Lima teve a maior importância. Nessas amizades, “conversar com o António Alçada, segundo Leonor, era um exercício de alegria, pelo improviso, pelo encadeamento de fábulas e de histórias. Podia dizer que os portugueses dramatizam o calor do verão e o frio do inverno. Ou que os portugueses têm vergonha de ser felizes e os brasileiros têm vergonha de ser infelizes”.


TUDO O QUE ERA PORTUGUÊS…
Tudo o que era português entusiasmava-a, mas sempre com o sentido crítico, de exigir que não fizéssemos má figura. Mas a noção de ser português para Leonor era muito ampla. Lia o “Chiquinho” do Baltazar Lopes com genuína emoção, como coisa sua. Emocionava-se com essa obra que deve ser de leitura obrigatória para qualquer amante da língua portuguesa e dos nossos crioulos. Deleitava-se a recordar: “Depois deitávamo-nos de barriga para o ar, namorando o céu carregado de estrelas. Ao fundo o mar fazia um ronco de meter medo. As constelações eram rebanhos pastando, dávamos nomes de vacas conhecidas às estrelas mais brilhantes. Detrás das estrelas, Nossenhor era um velho pastor vigilante do seu gado (…) Ficávamos parados, possuídos de um respeito religioso pelos mistérios com que a monte envolvia nossos corações meninos”. Também amava profundamente o Brasil. Um dia, em Itabira, quando fomos homenagear Carlos Drummond de Andrade na velha casa de família, ele que dizia que a sua casa era uma casa portuguesa, a simpática guia que nos acompanhava emudeceu ao compreender que nada podia explicar, pois Leonor sabia tudo sobre o grande poeta. E em Minas Gerais, em Ouro Preto e em Congonhas, com ela, sentimos que estávamos em casa, ao ouvir: “Aleijadinho sua alma voou / encantada / porque as pessoas não morrem diz joão guimarães rosa / Ele está no outro lado da morte sem cor de candinho portinari / o pintor do menino balanço de gangorra feito anjo no ar / Em Ouro Preto posso ouvir as vozes mineiras / de Itabira de Drummond / e Conceição de Mato Dentro de josé aparecido / e também o Rio de millôr / dos que amei eu guardo as vozes”. Entre rir e pensar, numa conversa à mesa, onde se diz que não se envelhece, porque a palavra puxa a palavra, um dia Nélida Pinõn disse. “a morte é simplesmente deixar a sopa esfriar na mesa, cruzar a porta do jardim sem olhar para trás ao menos para dizer adeus a quem fica e tomar um caminho que não sabe para aonde o leva e do qual nunca mais se retorna”. Leonor achava que essa era uma boa definição de um caminho possível que aceitasse os maiores mistérios. E por um momento pegava no tema para o ligar à vida, à memória, às lembranças. Quando lemos “Casas Contadas”, percebemos que descreve uma extraordinária trajetória de vida, através do ambiente das 13 casas que habitou desde a infância. Acompanhamo-la passo a passo, para descobrir em cada recordação um motivo de vida e de compreensão das pessoas, das pequenas e grandes diferenças. E o último livro que escreveu ainda nos reserva surpresas, que esperamos ansiosamente, com o título “Adolescência”.  Leonor deixou-nos, assim, não só a memória do que fica, mas também o lado peregrino, que busca permanentemente os outros. A distância atraía-a como modo de tomar consciência dos limites. Demos a volta ao mundo e essas viagens ficaram memoráveis. Releio “Uma Viagem das Arábias” e não posso deixar de reviver essas aventuras, no Golfo Pérsico, Sultanato do Oman, Jordânia, Petra, Emiratos Árabes (onde encontrámos a lembrança do piloto árabe de Vasco da Gama) até à magia do Cairo…


DOS QUE AMEI GUARDO AS VOZES
Havia sempre com Leonor Xavier uma inesgotável capacidade de olhar e de nos fazer compreender melhor os segredos e enigmas da vida. Em cada viagem revelava-se a ideia de nos procurarmos no divertimento e no lado alegre da vida, os “Disparates do Mundo” de Chesterton. Quando li o “Livro de receitas dos Lugares imaginários” de Alberto Manguel imaginei-a a cozinhar Salada de Sol, Camarão Nautilus à moda do Capitão Nemo ou Pedaços de Imortalidade. E não precisei de fazer um esforço especial, uma vez que ela nos ensinou em vários dos seus livros receitas deliciosas e modos diversos de definir personalidades diferentes. Assim podia saborear a existência em todas as suas qualidades. Portugal e Brasil existiam juntos em Leonor. Tantas vezes o seu inconfundível pronunciar da nossa língua comum pressupunha essa preocupação de se fazer entender dos dois lados do Oceano. “A cultura comum permanece nos traços do património histórico, nos gestos de cortesia, na intimidade das famílias tradicionais. E liga-nos a língua portuguesa, sagrada união de facto. Mas sendo no discurso oficial designados países irmãos, Portugal e Brasil são irmãos separados à nascença. Separados de facto, porque não cresceram juntos, não têm os mesmos códigos, nem verdadeira cumplicidade. São diferentes no entendimento do mundo, nos rituais da vida e da morte, no traçado da condição humana. Temos tanto a aprender uns com os outros, portugueses e brasileiros, sobre o que nos aproxima e nos separa”. E assim Alberto Costa e Silva deixou claro, numa conversa que teve com Leonor Xavier, que “uma política da língua interessa a todos os países onde se fala o português, porque ele fortalece a nossa presença no mundo. Nós seremos nos séculos vindouros aquilo que for a nossa língua”. E assim continuaremos a encontrar-nos. Ainda há muito mundo para viajar.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXV - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (VII)   

 

Se a linguagem falada, é um produto da evolução biológica, e a linguagem escrita exige instrução, sendo um fenómeno cultural, destinado a vencer o tempo e o espaço, através da imprensa e do livro, a que acrescem os meios eletrónicos e digitais atuais, um ser humano civilizado e qualificado tem de saber ler e escrever, enquanto o homem natural pode viver com a linguagem oral, como sucede em tribos primitivas.

 

Mas o potencial de universalidade e a dimensão de estratégia e de vanguarda de uma língua decorre ainda de ter tido capacidade de atravessar e penetrar em vários espaços geográficos deslocalizados territorialmente por continentes, através da descontinuidade linguística.                                                 

 

O que sucedeu com o nosso idioma, através da sua disseminação, o que é corroborado pelas suas caraterísticas de língua intercontinental, transnacional, transoceânica, transatlântica, pluricêntrica, internauta e de comunicação global.

 

Ser partilhada por várias culturas que a democratizaram, enriqueceram e moldaram com novas colorações e mais valias, embelezando-a e nobilitando-a, como língua absorvida, apropriada, miscigenada, incorporando novos vocábulos africanos e ameríndios, formando crioulos ou protocrioulos, tornou-a dinâmica, migratória, mestiça, dotando-a de uma maior flexibilidade e plasticidade, permitindo-lhe permanecer atuante e viva, o que a diáspora portuguesa, lusófona e contemporânea consolidou.

 

As quatro línguas europeias mais faladas (inglês, espanhol, português e francês), fruíram da primeira fase da globalização iniciada com a expansão portuguesa.

 

Tomando como referência a economia, um dos fatores mais decisivos para a utilidade funcional de uma língua, o nosso idioma sofre, de momento, algum défice, dado que a maioria dos países de língua oficial portuguesa ficam em África, continente deficitário em termos de desenvolvimento (embora também aí fiquem a maioria dos países de língua oficial francesa e uma parte significativa dos de língua inglesa).

 

Em contrapartida, tem melhor representação no continente americano, pelo Brasil, país de dimensão continental, maior número de falantes e potência emergente, sendo a língua mais falada do hemisfério sul, com grande potencial de crescimento demográfico, atenta a taxa de natalidade e população essencialmente jovem dos jovens países lusófonos.

 

Sendo o português uma língua de comunicação global enquanto materna e oficial de vários países de quatro continentes, associando um bloco linguístico global e internacional, corporizado e institucionalizado na CPLP, ultrapassado por uma comunidade linguística mais ampla que é a lusofonia, tem uma margem de crescimento superior, por exemplo, à do alemão, francês, italiano, russo, japonês. 

 

No caso da língua portuguesa, transitou-se de uma conceção lusista, lusíada, nacionalista e patrimonialista, para uma conceção não patrimonialista, partilhada, transcontinental, transnacional, lusófona e de exportação.

 

Sendo imperioso que seja útil ser usada por falantes de outras línguas, como segunda, terceira ou outra opção, apropriada, aceite, escolhida e querida como de exportação, informática e internauta, pois se servir apenas os seus nativos e maternos, não será um idioma internacional de comunicação global, antes sim uma língua internacional regional do ponto de vista global.     

 

É também tida como uma língua bipolar, assumindo o estatuto de língua global a nível mundial e o de “pequena língua” na Europa, sendo cada vez mais, em termos estatísticos, essencialmente não europeia, apesar da sua génese.

 

No dizer de Ivo de Castro, e sem esquecer a sua matriz galega: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”.                                   

 

Segundo Fernando Venâncio: “A experiência do português como instrumento de contactos alargados é não apenas uma surpresa: pode provar-se um deslumbramento. Isto deve-se, decisivamente, à abertura que sempre o português patenteou, à sua característica de bom aproveitador de quanto, à sua volta, achava de útil”. Uma língua em circuito aberto, acrescentando: “Mas, se fomos sobretudo um idioma importador, alguma coisa produzimos, também, de proveitoso para o largo mundo” (Assim nasceu uma língua, Guerra e Paz, 2019).       

 

Sucede que o mundo é cada vez menos eurocêntrico, há um ocidente em crise,  uma Europa em declínio, ausência de liderança europeia, sendo-nos preferencialmente favorável uma visão europeísta e atlantista, e a ter como exemplo evolutivo, no mundo ocidental, a liderança atual dos Estados Unidos da América, pode concluir-se que são e serão os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro o que, por analogia, está a suceder com a nossa língua.                

 

11.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LXIV - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (VI)

 

Uma vez que a expansão marítima europeia foi iniciada pelos portugueses, a sua língua, ou a adaptação dela, tornou-se a língua franca da maioria das regiões costeiras que se abriram ao comércio e aos empreendimentos europeus em todo o globo.

Mesmo quando substituídos por holandeses, o nosso idioma criou raízes fortes. Enquanto os holandeses dominaram a totalidade ou parte do nordeste brasileiro, não conseguiram impor a sua língua. O mesmo sucedeu em Angola e no Congo onde, apesar de a maioria dos Bantos se ter associado aos holandeses entre 1641 e 1648, os seus escravos, auxiliares e aliados negros continuaram a utilizar o português.

Na Ásia, o português e os dialetos crioulos criados a partir dele, resistiram com êxito à pressão e legislação oficial holandesa. O exemplo mais visível da vitória da língua portuguesa sobre a holandesa é-nos dado pela capital colonial holandesa de Batávia, tida como a rainha dos mares orientais. O dialeto crioulo constituído a partir do português foi introduzido por escravos e criados domésticos da região da baía de Bengala e era falado pelos holandeses e mulheres de casta intermédia nascidas e criadas em Batávia, por vezes com exclusão da sua própria língua. Apesar das críticas oficiais a este costume, a maior parte dos holandeses tinha por grande honra ser capaz de falar uma língua estrangeira. O mesmo sucedeu em outras zonas, por exemplo no Cabo da Boa Esperança, onde o português crioulo se manteve durante muito tempo e teve forte influência no desenvolvimento da língua africânder.

A língua portuguesa era tida como uma língua fácil de falar e de aprender, com caraterísticas de língua global, unitária e universal, atenta a posição privilegiada de Portugal como potência marítima mundial, como língua apropriada, absorvida, enriquecida e miscigenada com o falar de outros povos, elevada à categoria de primeira língua de comunicação e imperial, como sucede hoje com o inglês.

Como consequência, difundiu-se por todo o mundo, ora falada corretamente, outras vezes sob a forma de crioulos e pidgins. Exemplos de uma língua que teve por base o português europeu, mas que depois se afastou do idioma de origem, temos os crioulos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Casamanssa (Senegal), os papiás cristam de Malaca, de Ceilão, os crioulos malaio-portugueses de Java e Singapura e os crioulos indo-portugueses de Goa, Damão e Diu. O pidgin é o proto-crioulo que deu origem aos vários crioulos portugueses espalhados pelas costas africanas e asiáticas.
Mas a difusão do nosso idioma não foi rígido nem categoricamente imperativo.

No Brasil, por exemplo, o português conviveu com o tupi-guarani dos índios, chegando a ser mais falada esta sua língua geral que o nosso idioma, o que prova que nos primeiros tempos não existia uma tentativa deliberada e consciente de aí difundir a língua portuguesa, o mesmo sucedendo, em maior ou menor grau, com as restantes línguas europeias em relação às suas colónias.

Esta política manteve-se até meados do século XVIII, época em que o Marquês de Pombal, no caso português, expulsou os jesuítas do Brasil e obrigou ao ensino do nosso idioma em todo o território, assegurando a unidade linguística e o futuro da língua portuguesa como idioma daquele país. Idêntica política viria a ser adotada mais tardiamente nas colónias africanas.

Esta conceção de imperialismo linguístico, em que era necessário impor a língua do centro, era praticada pelas demais potências coloniais em geral, nomeadamente Portugal, Espanha, França e Inglaterra. Tinha raízes na Revolução Francesa, em que um ideólogo, Abbé Grégoire, impunha o uso do francês e a proibição do latim, política que foi tomada como modelo a seguir. A Conferência de Berlim, em 1848, reforçaria esta visão.

 

04.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LXIII - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (V)

Sendo a dilatação da fé uma das razões para a expansão marítima, viajavam nas naus sempre missionários que se estabeleciam nas terras descobertas ou conquistadas, evangelizando e convertendo povos ao cristianismo.

Com referência a esses viajantes da fé cristã, refiram-se os padres José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, António Vieira e frei Cristóvão de Lisboa (Brasil), e S. Francisco Xavier e S. João de Brito (Ásia).

Descoberto o caminho marítimo para a Índia, assegurado e consolidado o Império pela África, Ásia, América e Oceânia, através de nomes como D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Lopo Soares de Albergaria e D. João de Castro, o rei D. Manuel I tomou o título de Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar, em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, título pomposo coroando e glorificando essa globalização.

Há a ter presente o conhecimento geográfico e a exatidão náutica que as viagens marítimas portuguesas proporcionaram à Europa, porque as suas cartas e rotas eram as melhores, sendo por isso pioneiras dos impérios marítimos europeus.

Da escola cartográfica portuguesa, nasceu a cartografia moderna, com cartógrafos como Diogo e Lopo Homem, Pedro e Jorge Reinel, Luís Teixeira, João Freire, Sebastião Lopes, Manuel Godinho de Erédia e Fernão Vaz Dourado.

Escreve o historiador britânico J. H. Plumb: “(…) o fascínio pela observação exata encontrava-se na maioria dos grandes exploradores portugueses. Traçavam as suas rotas nas cartas com uma exatidão espantosa. Anotavam cuidadosamente os animais, a vegetação, os minérios e as raças desconhecidas que iam encontrando, à medida que desciam a costa de África. Nada foi deixado ao acaso nos seus descobrimentos. Foram deliberados, bem programados e audaciosamente executados (…)” (introdução ao livro de Charles Boxer “O Império Marítimo Português 1415-1825”).

Dessa aventura pelos mares, surge a “era gâmica”, nas palavras do historiador inglês Arnold Toynbee, contactando com todo o género humano e todas as geografias.

A tomada de consciência da existência de um outro grupo de seres humanos, a troca de olhares e os gestos que acompanharam o primeiro encontro entre dois grupos de seres humanos foram o princípio da globalização cultural - a fala, a escrita, a discussão, o texto impresso, virão depois.

A confraternização ou a luta que se seguem a esse encontro, a negociação ou a violência que os acompanham são tidos como o princípio da globalização política, passando a globalização político-militar após a vinda das armas, exércitos, diplomatas e tratados.

A gestão das intenções em relação à posse das coisas, em termos de propriedade, e que eventualmente irá mudar como corolário das primeiras negociações ou confrontos, é o princípio da globalização económica.

 

28.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXII - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (IV)

 

Em 1394, nasceu, no Porto, a 4 de março, o Infante D. Henrique, “O Navegador”, pioneiro dos descobrimentos e da globalização.

 

Foram, assim, os portugueses os formuladores e os construtores iniciais da globalização/mundialização, neste feito forjando os seus heróis, aqui assumindo especial relevo Fernão de Magalhães e a viagem de circum-navegação à volta do globo terrestre, a primeira a nível mundial.

 

Cumpre referir, entre muitos, João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira, Gonçalo Velho Cabral, Gil Eanes, Afonso Gonçalves Baldaia, Nuno Tristão, Álvaro Fernandes, Dinis Dias, Diogo Gomes, António da Nola, Pedro de Sintra, Fernão Gomes, João de Santarém, Pedro Escobar, Fernando Pó, Álvares Esteves, Diogo de Azambuja,  Diogo Cão, João Afonso de Aveiro, Bartolomeu Dias, João Fernandes Labrador, Pedro de Barcelos, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Duarte Pacheco Pereira, Diogo Dias, Gaspar Corte Real, João da Nova, Vicente Sodré, Tristão da Cunha, Diogo Lopes de Sequeira, Francisco Serrão, António de Abreu, Jorge Álvares, Fernão Mendes Pinto que refere, no seu livro “Peregrinação”, que em 1541 ele próprio e dois companheiros, Diogo Zeimoto e Cristóvão Borralho, foram os primeiros portugueses que chegaram ao Japão, tendo visitado a ilha de Tanegashima, cujo régulo prendaram com uma espingarda, tida como a primeira arma de fogo introduzida naquele país.

 

Outros viajantes se podem mencionar, como Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, aos quais, em 1487 e às ordens de D. João II, coube, ao primeiro, levar à corte etíope cartas dirigidas pelo monarca português ao Preste João, nome dado na Europa ao Imperador da Etiópia, enquanto o segundo ficou com o dever de obter frutuosa e sigilosa informação sobre o comércio e navegação no Oceano Índico. A que acrescem outros nomes como os de Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira, Diogo de Teive, viagens pelo Atlântico Norte de João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem; novas explorações da Terra Nova por Miguel Corte Real e do Golfo de São Lourenço (ao sul da Terra Nova) por João Álvares Fagundes; achamento das Maldivas atribuído a Simão de Andrade, entre tantos outros.

 

Continuaram os portugueses a percorrer os mares e a descobrir novas terras, mesmo que por conta das navegações espanholas. Portugueses como João Dias de Solis, de origem espanhola e nascido em Portugal, que em 1515 achou as costas meridionais da América do Sul e explorou o estuário do Rio da Prata, onde foi morto pelos indígenas; João Rodrigues Cabrilho, explorador da Califórnia (1542-1543); Pedro Fernandes de Queiroz, descobridor das Marquesas (1595) e das Novas-Hébridas (1606). Portugueses marinheiros e construtores iniciais da globalização, mesmo colaborando no estudo e execução da expansão marítima de outros povos. 

 

21.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXI - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (III)

 

Para além da perspetiva unitária do mundo via diversidade, as navegações portuguesas abriram uma brecha no conceito restrito de humanidade até então dominante na Europa. 

 

A Europa, incluindo a eclesial, ensinada nas escolas, não aceitava que o Homem fosse um ser existente para além do mundo europeu, da romanidade e, quando muito, das periferias africana e asiática. A antropologia europeia do século XV era restritiva, sendo tido como Homem o do mundo arábico-judeo-cristão, do mundo romano e, no máximo, o das regiões periféricas europeias. Pierre d´Ailly, o sábio, seguido no ensino, ensinava que, para além da periferia, o que se achava, em termos de seres vivos, lá para os extremos da terra, eram uns “seres selvagens”, “difícil de precisar se são homens ou bestas”. Para além dos mares pensava-se que houvesse seres que, mesmo parecendo homens, haviam de ser bestas. O episódio do Adamastor, em Os Lusíadas, representa a alegoria deste temor, a figura do “monstro humano”, ensinada por D´Ailly.

 

Era a tese oficial da Europa, que justificava caçar, dizimar, ocupar, deter, prender, sem problemas de consciência. Foi esta conceção que justificou as hecatombes na América, via extermínio dos Astecas, Maias, Incas, Apaches, entre outros.

 

Tese corroborada pela teoria aristotélica da inferioridade natural de algumas raças, adaptada à legalização da escravatura, tema enxertado na história do Antigo Testamento da maldição de servidão perpétua rogada por Noé à descendência de Canaã, filho de Cam, de quem se pensava que descendiam os negros (Génesis IX, 25). Outros afirmavam que descendiam de Caim “que havia sido amaldiçoado pelo próprio Deus”. Teólogos e leigos estavam convencidos que a escravatura negra era autorizada pela Bíblia, apesar de alguns, por razões humanitárias, censurarem o tratamento cruel infligido aos escravos. 

 

Portugal não foi exceção à regra, daí a existência de traficantes de escravos ou negreiros, veleiros e mercadores incluindo, não poucas vezes, a colaboração de indígenas com a mesma origem das próprias vítimas, embora desde o início das viagens   houvesse vozes portadoras de uma consciência humanista. Para narrar a chegada e a repartição dos escravos africanos a Lagos, no Algarve, o cronista régio Gomes Anes de Azurara entra na narração com um prévio clamor, tipo ato de penitência: “Eu te rogo (ó tu celestial Padre) que as minhas lágrimas nem sejam dano da minha consciência… E se as brutas animálias, com seu bestial sentir, por um natural instinto, conhecem os danos de suas semelhantes, que queres que faça esta humanal natureza, vendo assim diante dos meus olhos aquesta miserável campanha, lembrando-se de que são da geração dos filhos de Adão?” (Crónica da Guiné, cap. XXV). 

 

Álvaro Velho, roteirista da primeira viagem de Vasco da Gama, ao chegar à Guiné, tratou de vincar, para a Europa, que os seus habitantes eram homens com dignidade anotando, num traço de ternura e simpatia para com aqueles povos: “e têm muitos cães como os de Portugal, e assim mesmo ladram”. Um sinal para se compreender a identidade na diferença e que aquela gente era ser humano, tanto assim que tais homens (os da Guiné), são iguais aos daí, que até têm cães, que são iguais e ladram como os daí. No teto da Capela Sistina, Miguel Ângelo pintou uma alegoria: o português a elevar o negro africano. 

 

A maior dificuldade, porém, viveu-se na América, onde pessoas “mui avisadas” diziam que os índios “não eram próximos”, ou seja, não eram seres humanos, “e porfiam-no muito, nem têm para si que estes são homens como nós” (Padre Manuel da Nóbrega, Cartas do Brasil). Os conquistadores queriam mão de obra índia, gratuita. Os frades queriam as almas dos índios, vendo neles homens. Os mercadores e ocupantes de terras queriam súbditos, vendo neles “bestas”, tendo apoio no reino de Castela onde predominava a tese oficial da não humanidade dos índios americanos. 

 

Não admira, assim, que o que causou estranheza à Europa foram os testemunhos a favor dos índios (entre os espanhóis, refiram-se Francisco Vitória, Bartolomé De Las Casas e Francisco Suarez). 

 

Significativa é a Carta do Achamento de Pêro Vaz de Caminha, onde o cronista régio do Brasil tem como principal missão informar que os índios brasileiros são homens, seres humanos: “segundo o que a mim e a todos pareceu esta gente, não lhes falece outra cousa para ser toda cristã”. E acrescenta: “parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos”. 

 

No filme “A Missão”, de Roland Joffé, a mensagem é que os índios são pessoas com dignidade humana, com alma, alfabetizados e cristianizados pelos jesuítas, que os ajudaram a resistir contra quem os tinha como coisas e os queria como mão de obra escrava.     

 

Os índios deixam de ser coisas, porque são homens, logo podem ser cristianizados, pelo que também não podiam ser obrigados a trabalhar, porque eram pessoas, indo-se então buscar os africanos como mão de obra escrava, justificando-se a escravatura africana.

 

14.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LX - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (II)

 

Foi no século XVI que a fixação da língua portuguesa se consolidou, tendo contribuição decisiva a invenção da imprensa, permitindo a divulgação do livro em larga escala.

 

Genuínos cabouqueiros do nosso idioma foram D. Dinis (ver texto anterior), Fernão Lopes (em especial na Crónica de D. João I), D. Duarte (Leal Conselheiro), D. Pedro (Tratado da Virtuosa Benfeitoria), Gil Vicente, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro.

 

Também a palavra escrita na literatura e na cultura em geral assumiu lugar de destaque, inclusive via disseminação pelos descobrimentos, em que o rei poeta e visionário, plantador de naus a haver, salvador dos templários portugueses pela criação da ordem militar de Cristo, fundador da primeira universidade portuguesa e da instituição do português como língua oficial da corte, teve papel estratégico de engenho e arte. 

 

Em “Os Lusíadas”, o Velho do Restelo representa a política de fixação e da continentalidade europeia, sendo uma alegoria da Europa, dizendo esta a Portugal para não partir e ficar. Mas Portugal partiu, “indo a outros lugares que o onde estamos”, surgindo uma nova cultura ligada àquilo a que chamamos literatura portuguesa de viagens, e a literatura científica associada, onde a palavra escrita é rainha.   

 

A ciência e historiografia quinhentista floresceu e consolidou-se com nomes como os de Duarte Pacheco Pereira (Esmeraldo de Situ Orbis), Pedro Nunes (Tratado em Defesa da Carta de Marear), João de Castro (Roteiro de Lisboa a Goa e do Mar Roxo), João de Barros (Décadas da Ásia), Diogo do Couto (Diálogo do Soldado Prático), Damião de Gois (Crónica do felicíssimo Rei dom Emanuel de gloriosa memória e a Crónica do Príncipe Perfeito), Gaspar Correia (Lendas da Índia),  o naturalista Garcia da Orta que, em 1563, escreve: “Digo que se sabe mais agora em um dia pelos Portugueses, do que se sabia em 100 anos pelos Romanos” (“Colóquio dos Simples e Drogas da Índia”). De igual modo se podem mencionar Tomé Lopes (“Diário da Segunda Viagem de Vasco da Gama à Índia”, 1502), D. Francisco Álvares (“A Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias”, 1540) e Fernão Lopes de Castanheda (“História dos Descobrimentos e Conquista da Índia pelos Portugueses”, 1551). 

 

Fernão Mendes Pinto, com a sua “Peregrinação” é, para muitos, o iniciador, dentro da cultura ocidental e mundial, da “primeira tomada de consciência da unidade do mundo através da sua diversidade - consequência do encontro de civilizações resultantes dos descobrimentos dos séculos XV e XVI” (António José Saraiva, “Prefácio” a Fernão Mendes Pinto, Peregrinação e Outras Obras, Livraria Sá da Costa, 61, vol. I, p. 25). Invertendo o exotismo literário e turístico do século XIX e princípios do século XX, tido como diletante e pretensioso para o preconceito de superioridade de rico e letrado transeunte, “em Fernão Mendes Pinto, pelo contrário, encontramos uma adesão sincera e emocionada ao mundo maravilhoso que percorreu. Não é um turista, é um homem que não se cansa de aprender, com o entendimento, com os ouvidos, com os olhos”(op. cit.).

 

Gilberto Freyre, em “Aventura e Rotina”, descreve-o assim: “Fernão foi soldado e foi marinheiro mas espalhou-se de tal modo noutras atividades - comerciante, médico, missionário, embaixador - que sua figura permanece a do mais extraordinário homem-orquestra que já nasceu em Portugal”

 

De Fernão Mendes Pinto, a propósito de “Peregrinação”, há o trocadilho Mentes, Pinto? - Minto, porque algumas páginas de aventuras e memórias autobiográficas pelas terras do Oriente pareceram inverosímeis aos ocidentais de então, porque portadoras de inusitadas e surpreendentes novidades…

 

Um Fernão Mendes Pinto cada vez mais conhecido como um valor literário de sentido universal, maior, neste sentido, para alguns, que o do próprio Camões, prejudicado por um heroísmo e nacionalismo épico mais excessivo. 

 

07.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LIX - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (I)

 

D. Dinis, em plena Idade Média, ao mandar plantar o pinhal de Leiria, queria matéria prima para uma marinha forte e eficaz, nomeando almirante mor do reino o genovês Manuel Pessanha, ato tido pelos historiadores como um dos seus feitos fundamentais, daí saindo madeira para as futuras viagens marítimas. Fernando Pessoa chamou-lhe “plantador de naus”. Um estratega, que para além da fundação da universidade portuguesa, decretou o uso do português nos documentos públicos, mandando traduzir obras valiosas do hebraico, árabe e outros idiomas. Nas viagens por mar não iam só os seus protagonistas, viajando consigo outros viageiros que os ultrapassavam em longevidade, como a língua, a cultura e a religião, sendo dos três o mais relevante a língua, na sua qualidade de companheira e intérprete constante dos outros dois.

 

A língua “era a companheira do Império”, na opinião de António de Nebrija, atribuindo tal função ao castelhano, ao publicar, em 1492, a sua “Grammatica Castellana”, o que pode ser extensivo à língua que os navegadores portugueses transportavam, neste caso a portuguesa.

 

No mesmo sentido se pronunciou o primeiro gramático português Fernão de Oliveira, na sua “Gramática da Linguagem Portuguesa”, em 1536, mantendo-se seguidor da linha imperialista de Nebrija, ao defender que os portugueses deviam atuar como os gregos e os romanos, que tinham assegurado a coesão do Império devido à difusão obrigatória das suas línguas. Duarte Nunes de Leão, na obra “Ortografia e Origem da Língua Portuguesa” (1576), na última quarta parte do século XVI, associando às navegações, descobrimentos e conquistas dos portugueses a difusão e utilização língua portuguesa, escrevia que ela “tão puramente se fala em muitas cidades de África que ao nosso jugo estão sujeitas, como no mesmo Portugal, e em muitas províncias da Etiópia, da Pérsia e da Índia, onde temos cidades e colónias, nos Sionitas, nos Malaios, nos Maluqueses, Léqueos, e nos Brasis, e nas muitas e grandes ilhas do Mar Oceano e tantas outras partes”. Também as gramáticas de Pero de Magalhães Gândavo (1574), Amaro Roboredo (1619) e de P. Bento Pereira (1666), desempenharam um papel crucial na fixação do nosso idioma.

 

Com a língua chegou às antigas colónias portuguesas da América, África e Ásia, toda uma matriz de cultura lusa, que iria, ao longo dos séculos, em contacto e mistura com o elemento local, criar culturas variadas e individualizadas, sem prejuízo dos seus traços de origem, que se desdobrariam posteriormente em afetos, afinidades, cooperação, permutas e conflitos.

 

Para além do poderio militar e naval dos portugueses na era de quinhentos, conhecedores, inclusive, de armas de fogo, inicialmente desconhecidas para os povos que inicialmente descobriram, colonizaram e dominaram, também o português contribuiu decisivamente como língua de conhecimento, comunicação, afirmação e unidade desses mesmos povos, com especial incidência em África e na América.

 

Numa análise dos elementos substantivos da cultura africana e indígena do Brasil, conclui-se, desde logo, serem compostas por elementos folclóricos (danças, canções e os trajes de cada região), em conjugação com uma visão peculiar do homem e da natureza, em que o plano do humano e do natural se articulam numa harmonia animista de índole ecológica.

 

Atento a natureza oral de tais culturas, pode-se dizer que o seu ponto fraco e perigo de não resistência residia predominantemente nessa mesma oralidade, operando as línguas pela palavra falada, instantânea e momentaneamente dita, ao invés da que era falada e escrita, fixa em livros, que influencia quem a fala e lê, com natural tendência para ser imitada e divulgada como uma linguagem organizada.

 

31.07.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de abril de 2019

 


«Há Laranjeiras em Atenas»
de Leonor Xavier (Temas e Debates, Circulo de Leitores, 2019) reúne um conjunto diversificado de textos, a um tempo divertidos e sérios, livro de memórias e de viagens, de anotações e comentários…

 

 

DELICIOSO PORMENOR
O gosto e a surpresa têm a ver com pequenos pormenores, mas absolutamente marcantes. “Ah, há laranjeiras nas ruas de Atenas. De tronco alto e copa redonda, a cor de laranja a animar-lhes os frutos, talvez secos por dentro e exuberantes por fora, e afirmar a vida, mais ainda em tempo de tantas outras e desvairadas vidas perdidas, na desgraça destes nossos tempos”. Onde está a surpresa? Qual a chave deste delicioso pormenor? “A cabeça da gente é movimentada, o corpo e a alma andam por ela, feitos um só. E generosa é a nossa língua portuguesa no jeito de dizer”. É que em grego, como em diversas línguas do Mediterrâneo oriental, laranja diz-se “portokali”, exatamente porque os portugueses foram os primeiros a trazer no século XVI as laranjas doces da longínqua China… Leonor Xavier surpreende-nos com este pequeno texto e com o título, para nos levar àquilo que recorda sobre David Mourão-Ferreira, criador da palavra “escreviver”, que vamos encontrando, a cada passo, neste pequeno livro, onde encontramos desde reflexões espirituais a deliciosas receitas culinárias. E Leonor diz-nos “pois eu assim me sinto, a saborear a invenção e o conceito, a relembrar o meu entusiasmo exclamado em face das laranjeiras de maio em Atenas que agora vejo transformadas em livro”. Na dimensão memorialista, encontro um amigo comum, que tanta saudade nos deixa. Falo de António Alçada Baptista de quem a autora diz: “no Brasil ele renascia, como se uma outra metade de si tivesse de descobrir. (…) Assim lhe conheci a leveza do espírito, a graça e o humor, a fluência, a habilidade na picardia, o sucesso com as mulheres. O entendimento de um mundo oposto aos rigores europeus da sua matriz intelectual. Dizia que a ida dos portugueses ao Brasil deveria ser gratuita e obrigatória”. E com que gosto, Leonor nos faz reencontrar velhos e bons amigos…

 

A PAISAGEM AO MEU LADO… 
Estamos perante um livro pleno de pessoas vivas, próximas, de carne e osso e espírito aberto… Teresa Belo – a sua alegria “era boa de sentir, contagiava o jeito que tinha no claro saber que fazia das complicações simplicidade”. E Ruy Belo, a caminho da Arrábida diz: “A paisagem está ao meu lado”. Em pano de fundo estão os versos ditos por David, as sequências gregas do padre Manuel Antunes e as “viagens de estudo e criatividade” com Lindley Cintra, a ler poemas de Sebastião da Gama ou trechos de Fernão Lopes, na “glória das palavras pronunciadas”. Ana Vicente “era a expressão de fé que conheci nos seus gestos, no seu recolhimento em modo de espiritualidade pura”. Jorge Salavisa ensinava que “o meu refúgio é a minha casa (…) As casas para mim têm de ser arrumadas, limpas…”. A amizade de Marci Dória era um sinal de serena devoção. Jorge Amado está presente com a sua filha Paloma numa história comovente. Outro amigo comum, Eduardo Prado Coelho, é recordado, e é sobre ele que uma das netas de Leonor invoca Malala: “houve uma altura em que as mulheres ativistas pediam aos homens para defender os seus direitos e lutar por elas. Agora fazemo-lo nós próprias”… A propósito de uma das pontes Lisboa-Porto do CNC, sobre Álvaro Siza Vieira, é lembrada com grande afeição a capacidade fantástica da Helena Vaz da Silva para fazer da cultura uma realidade viva. Carlos Drummond de Andrade resume o Rio de Janeiro: “amanhece como em qualquer lugar do mundo. Mas parece que as coisas se amaram durante a noite”. E Nélida Piñon lembra que “a morte é simplesmente deixar a sopa esfriar na mesa, cruzar a porta do jardim sem olhar para trás para dizer adeus a quem fica a tomar um caminho que não sabe por onde o leva e do qual nunca mais se retorna”. Ou João Cabral, na magistral “Morte e Vida Severina”, pergunta: “E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa morte foi morrida ou matada?”. E vem à memória Agostinho da Silva – “o Mestre não desistia de sonhar. Propunha e desejava espaços livres e convívio, debate, reflexão sobre as questões mais urgentes, para o entendimento dos caminhos da sociedade”… As memórias multiplicam-se. Quantos amigos, familiares, próximos e distantes… Nas agendas, porém, vamos aumentando o número dos que faltam, e a quem gostaríamos agora de falar, apenas para dizer que existimos. Mas Leonor Xavier não esquece ainda, a propósito de um livro inolvidável de Onjaki, os transparentes – “os outros, aqueles que em total anonimato se movem nas cidades. Os outros, que quase sempre são tratados como objetos, os fornecedores, os funcionários, as vendedoras das lojas, os que contam água e luz, os da máquina registadora, os carregadores de móveis, os que entram e saem do metro, os que esperam na paragem de autocarro…”.

 

MEMÓRIAS NECESSÁRIAS
Mas a obra multiplica-se em referências. Num exercício espiritual, Leonor lembra, ilustrando um tempo não muito distante: “a Igreja que conheci era austera, imponente, intolerante, radical, ausente presença da palavra de Jesus na prática dos dias. Os rituais eram demorados, as homilias longas, ameaçadoras e declamadas, os adereços aparatosos, os paramentos adornados de damascos, rendas, brocados”. E invoca-se, o espírito do Concílio Vaticano II que se foi afirmando, força da pura sabedoria expressa na abertura de espírito do padre Manuel Antunes, entre o génio grego e o génio romano, na manifestação do sentimento místico, da expressão da arte, da espiritualidade e do encontro ente fé e razão. E não se esquecem as lições de História do Cristianismo do padre Honorato Rosa. Chegada ao Brasil da autora, fervilham a teologia da libertação e a sua crítica, há tensão, crítica serena. E depois desse tempo, invoca-se Frei Bento Domingues, lembra-se o padre José Tolentino Mendonça, na missa de Hermínio Monteiro e a sua dedicatória na tese de doutoramento, sobre a mulher pecadora no Evangelho de Lucas – “A todos os que, um dia, choraram aos pés de Jesus”. E entre mil papelinhos a autora descobre esta frase do Papa Francisco: “o mal espelha-se onde faltam cristãos audazes”… De facto, como disse Cervantes, a estrada tem mais a ensinar-nos do que a estalagem. E esta ideia está subjacente ao livro, onde é evidente um diálogo intensíssimo entre a audácia do ser e a permanência do ficar. Daí a epígrafe de Agustina: “a grandeza do mundo não me tolhe, porque maior que tudo é a realidade de um coração que ama e sente”. E Jorge Martins lembra que uma obra de arte “é uma busca que pode ser mística ou artística”, é uma viagem, uma aventura de descoberta – e mesmo que saibamos onde queremos ir, às vezes não conseguimos chegar lá.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 26 de fevereiro a 5 de março de 2018.

 

O livro de Marco Polo é uma referência essencial nos relatos de viagens, sobretudo pela influência que exerceu na abertura de horizontes nas descobertas oceânicas dos séculos XV e XVI, em especial iniciadas pelos portugueses.

 

 

MARCO POLO E PORTUGAL
Em Portugal é conhecido o facto de um exemplar manuscrito constar da livraria de D. Duarte, devendo pensar-se que esse exemplar esteja relacionado com o que foi trazido pelo Infante D. Pedro de Veneza na década de 1420, depois das importantes deambulações europeias. Temos notícia da tradução impressa em 1502 (vd. imagem), escrita antes, feita por Valentim Fernandes com objetivos informativos, para os portugueses que se dirigiam ao Oriente, e políticos, para enaltecer o rei D. Manuel, tendo um texto introdutório que descrevia os territórios correspondentes à Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Sobre a Pérsia são parcas as palavras de Valentim Fernandes, que remete para o relato do próprio Marco Polo, onde se faz referência às regiões desde Tabriz (noroeste do Irão) até Caxemira. É essencialmente o mercador que está em causa, referindo as rotas comerciais, dando natural ênfase a Ormuz e aos produtos trocados em cada região, bem como aludindo ao clima, às riquezas naturais e às condições de segurança. Aí se fala da devastação operada pelos chamados incorretamente de tártaros, já que se trata de mongóis; da cidade de Saba, terra mítica dos magos que foram a Belém, adorar Cristo; da fauna, avultando as referências aos falcões e aos asnos; da flora exótica e desconhecida dos europeus; das práticas bárbaras dos habitantes da zona; da influência exercida pelos indianos nas práticas de magia; da beleza das mulheres de Timochain no norte da Pérsia e dos vestígios da presença de Alexandre Magno. A Pérsia interessa aos europeus como território da rota da seda e como repositório histórico de interesse superlativo. No caso português, a Pérsia fará mesmo parte dos títulos do rei D. Manuel, onde expressamente se refere a «conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia». Ormuz, por onde Marco Polo passou duas vezes, constituirá o ponto estratégico crucial da presença portuguesa no Golfo Pérsico – definida e iniciada por Afonso de Albuquerque. O primeiro português em terras do Golfo e na ilha de Ormuz, em 1489, foi porventura Pêro da Covilhã, enviado por D. João II em busca do reino do Preste João. O rabi Abraão de Beja e o sapateiro José de Lamego, que andaram na região, também terão estado em Ormuz, mas as informações destas explorações terrestres apenas chegaram a Portugal depois de terem sido contadas por Pêro da Covilhã ao Padre Francisco Álvares em 1520, quando foram estabelecidas relações com o Imperador da Abissínia…

 

O ESPÍRITO DAS CRUZADAS
Devemos lembrar os planos de D. Manuel para a conquista do Médio Oriente, desde o reino mameluco à ambição da tomada de Jerusalém, segundo os velhos ideais das cruzadas. Afonso de Albuquerque participava de tais ideias messiânicas – facto que não pode ser esquecido quando analisamos a sua ação. Como sabemos, em outubro de 1507 houve uma primeira conquista da praça de Ormuz por Albuquerque, já que o domínio da entrada do golfo Pérsico constituía uma condição essencial para o comércio do mar Arábico, sobretudo perante o insucesso na tomada de Adém. Assim se poderia enfraquecer a influência otomana no levante do Mediterrâneo, apesar de o império turco conhecer um período de expansão e consolidação no território persa. Ormuz era um importante centro de comércio, onde se trocavam alimentos, drogas, incenso, especiarias, marfim, metais e minerais, cavalos (persas e árabes), tecidos e joias, perfumes e produtos de luxo. Não foram fáceis, porém, os primeiros tempos para os portugueses, já que Albuquerque foi levado a abandonar a presença em Ormuz (1508), na sequência de um motim de capitães – tendo, mesmo assim, praticamente concluída a construção da fortaleza. A expansão otomana e a ameaça desse movimento avassalador levaram a uma aproximação da Pérsia a Portugal. Deste modo, o próprio Afonso de Albuquerque, pouco depois da conquista de Goa (1510), recebeu um enviado do xá Ismail – que apontou no sentido de haver possibilidades de uma aliança. De facto, havia objetivos convergentes no antagonismo relativamente ao Sultão do Cairo e à expansão turca… Contudo, foram tímidos os progressos no sentido de um entendimento formal, que perdeu premência com os sucessos das conquistas otomanas, com o enfraquecimento do poder do xá, com a incorporação do sultanato mameluco no império turco e com a morte de Afonso de Albuquerque (1515). Como se nota nas “Décadas da Ásia” de Diogo do Couto, o tom adotado é o de um relacionamento pacífico entre o Estado Safávida e o Estado Português da Índia…

 

FINALMENTE EM ORMUZ…
Em Abril de 1515, Albuquerque, “o cavaleiro grande e forte leão dos mares”, então governador da Índia, concretizaria a conquista de Ormuz, para mais de um século, e então pôde ter lugar o completamento e a consolidação do Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz. Sobre a importância da Praça, Diogo do Couto citará o vice-rei D, Afonso de Noronha, em 1552: “as outras fortalezas podem-se chamar membros particulares da Índia, mas Ormuz é corpo de que todos os membros rebem substância e se sustêm (…) nem a Índia se pudera sustentar sem a contratação de Ormuz”. Um fidalgo velho acrescentou que “Ormuz era a chave de toda a Índia, e cabeça daquele comércio da Pérsia e da Arábia, título de que os reis de Portugal tanto se jactavam”. Tomé Pires, logo em 1513, ao passar por Ormuz a caminho da China, descrevera, aliás, o reino como “rico e nobre” e “chave para a Pérsia” – “o povo é civilizado e humilde; tem espírito guerreiro, boas armas e cavalos”. Gaspar da Cruz em apêndice ao seu “Tratado das Cousas da China” escreveu sobre a cidade de Ormuz, onde viveu três anos (1560-63), que a urbe “tem todas as riquezas e abastança de todas as cousas que de fora lhe trazem” – sendo os rendimentos da alfândega muito vultosos. Couto não é, porém, pródigo na análise das vantagens económicas, limitando-se a referir a utilidade de Ormuz enquanto escala, onde as armadas deviam “invernar”. Se os navios de maior porte se recolhiam na baía de Mascate, os mais ligeiros ficavam em Ormuz, retornando a Goa em setembro/outubro… E, sendo o reino de Ormuz como que um protetorado português, reconhecendo-se o monarca como vassalo do rei de Portugal, a quem pagava um tributo anual (as páreas), o cronista trata as questões desse território como do Estado da Índia, até por haver uma fortaleza com capitão e contingente militar. Duraria até 1622 a presença em Ormuz, quando as forças persas e britânicas tomaram a cidade. Hoje, podemos com a distância do tempo analisar as relações de Portugal e da Pérsia, a partir dos acontecimentos, considerando as condicionantes geoestratégicas, a expansão do império otomano, os altos e baixos na situação muito vulnerável como é a do golfo. As narrativas, como a moderna historiografia o reclama, deverão ser equilibradas e não celebratórias nem anacrónicas na definição dos termos de referência. O importante é registar o conhecimento mútuo e compreender o futuro como capaz de entender a diversidade das circunstâncias e a complexidade dos factos. A diversidade das culturas, dos valores e interesses conduz-nos à necessidade de uma ponderação serena e objetiva dos factos e à procura de pontos de encontro.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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