Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de abril de 2019

 


«Há Laranjeiras em Atenas»
de Leonor Xavier (Temas e Debates, Circulo de Leitores, 2019) reúne um conjunto diversificado de textos, a um tempo divertidos e sérios, livro de memórias e de viagens, de anotações e comentários…

 

 

DELICIOSO PORMENOR
O gosto e a surpresa têm a ver com pequenos pormenores, mas absolutamente marcantes. “Ah, há laranjeiras nas ruas de Atenas. De tronco alto e copa redonda, a cor de laranja a animar-lhes os frutos, talvez secos por dentro e exuberantes por fora, e afirmar a vida, mais ainda em tempo de tantas outras e desvairadas vidas perdidas, na desgraça destes nossos tempos”. Onde está a surpresa? Qual a chave deste delicioso pormenor? “A cabeça da gente é movimentada, o corpo e a alma andam por ela, feitos um só. E generosa é a nossa língua portuguesa no jeito de dizer”. É que em grego, como em diversas línguas do Mediterrâneo oriental, laranja diz-se “portokali”, exatamente porque os portugueses foram os primeiros a trazer no século XVI as laranjas doces da longínqua China… Leonor Xavier surpreende-nos com este pequeno texto e com o título, para nos levar àquilo que recorda sobre David Mourão-Ferreira, criador da palavra “escreviver”, que vamos encontrando, a cada passo, neste pequeno livro, onde encontramos desde reflexões espirituais a deliciosas receitas culinárias. E Leonor diz-nos “pois eu assim me sinto, a saborear a invenção e o conceito, a relembrar o meu entusiasmo exclamado em face das laranjeiras de maio em Atenas que agora vejo transformadas em livro”. Na dimensão memorialista, encontro um amigo comum, que tanta saudade nos deixa. Falo de António Alçada Baptista de quem a autora diz: “no Brasil ele renascia, como se uma outra metade de si tivesse de descobrir. (…) Assim lhe conheci a leveza do espírito, a graça e o humor, a fluência, a habilidade na picardia, o sucesso com as mulheres. O entendimento de um mundo oposto aos rigores europeus da sua matriz intelectual. Dizia que a ida dos portugueses ao Brasil deveria ser gratuita e obrigatória”. E com que gosto, Leonor nos faz reencontrar velhos e bons amigos…

 

A PAISAGEM AO MEU LADO… 
Estamos perante um livro pleno de pessoas vivas, próximas, de carne e osso e espírito aberto… Teresa Belo – a sua alegria “era boa de sentir, contagiava o jeito que tinha no claro saber que fazia das complicações simplicidade”. E Ruy Belo, a caminho da Arrábida diz: “A paisagem está ao meu lado”. Em pano de fundo estão os versos ditos por David, as sequências gregas do padre Manuel Antunes e as “viagens de estudo e criatividade” com Lindley Cintra, a ler poemas de Sebastião da Gama ou trechos de Fernão Lopes, na “glória das palavras pronunciadas”. Ana Vicente “era a expressão de fé que conheci nos seus gestos, no seu recolhimento em modo de espiritualidade pura”. Jorge Salavisa ensinava que “o meu refúgio é a minha casa (…) As casas para mim têm de ser arrumadas, limpas…”. A amizade de Marci Dória era um sinal de serena devoção. Jorge Amado está presente com a sua filha Paloma numa história comovente. Outro amigo comum, Eduardo Prado Coelho, é recordado, e é sobre ele que uma das netas de Leonor invoca Malala: “houve uma altura em que as mulheres ativistas pediam aos homens para defender os seus direitos e lutar por elas. Agora fazemo-lo nós próprias”… A propósito de uma das pontes Lisboa-Porto do CNC, sobre Álvaro Siza Vieira, é lembrada com grande afeição a capacidade fantástica da Helena Vaz da Silva para fazer da cultura uma realidade viva. Carlos Drummond de Andrade resume o Rio de Janeiro: “amanhece como em qualquer lugar do mundo. Mas parece que as coisas se amaram durante a noite”. E Nélida Piñon lembra que “a morte é simplesmente deixar a sopa esfriar na mesa, cruzar a porta do jardim sem olhar para trás para dizer adeus a quem fica a tomar um caminho que não sabe por onde o leva e do qual nunca mais se retorna”. Ou João Cabral, na magistral “Morte e Vida Severina”, pergunta: “E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa morte foi morrida ou matada?”. E vem à memória Agostinho da Silva – “o Mestre não desistia de sonhar. Propunha e desejava espaços livres e convívio, debate, reflexão sobre as questões mais urgentes, para o entendimento dos caminhos da sociedade”… As memórias multiplicam-se. Quantos amigos, familiares, próximos e distantes… Nas agendas, porém, vamos aumentando o número dos que faltam, e a quem gostaríamos agora de falar, apenas para dizer que existimos. Mas Leonor Xavier não esquece ainda, a propósito de um livro inolvidável de Onjaki, os transparentes – “os outros, aqueles que em total anonimato se movem nas cidades. Os outros, que quase sempre são tratados como objetos, os fornecedores, os funcionários, as vendedoras das lojas, os que contam água e luz, os da máquina registadora, os carregadores de móveis, os que entram e saem do metro, os que esperam na paragem de autocarro…”.

 

MEMÓRIAS NECESSÁRIAS
Mas a obra multiplica-se em referências. Num exercício espiritual, Leonor lembra, ilustrando um tempo não muito distante: “a Igreja que conheci era austera, imponente, intolerante, radical, ausente presença da palavra de Jesus na prática dos dias. Os rituais eram demorados, as homilias longas, ameaçadoras e declamadas, os adereços aparatosos, os paramentos adornados de damascos, rendas, brocados”. E invoca-se, o espírito do Concílio Vaticano II que se foi afirmando, força da pura sabedoria expressa na abertura de espírito do padre Manuel Antunes, entre o génio grego e o génio romano, na manifestação do sentimento místico, da expressão da arte, da espiritualidade e do encontro ente fé e razão. E não se esquecem as lições de História do Cristianismo do padre Honorato Rosa. Chegada ao Brasil da autora, fervilham a teologia da libertação e a sua crítica, há tensão, crítica serena. E depois desse tempo, invoca-se Frei Bento Domingues, lembra-se o padre José Tolentino Mendonça, na missa de Hermínio Monteiro e a sua dedicatória na tese de doutoramento, sobre a mulher pecadora no Evangelho de Lucas – “A todos os que, um dia, choraram aos pés de Jesus”. E entre mil papelinhos a autora descobre esta frase do Papa Francisco: “o mal espelha-se onde faltam cristãos audazes”… De facto, como disse Cervantes, a estrada tem mais a ensinar-nos do que a estalagem. E esta ideia está subjacente ao livro, onde é evidente um diálogo intensíssimo entre a audácia do ser e a permanência do ficar. Daí a epígrafe de Agustina: “a grandeza do mundo não me tolhe, porque maior que tudo é a realidade de um coração que ama e sente”. E Jorge Martins lembra que uma obra de arte “é uma busca que pode ser mística ou artística”, é uma viagem, uma aventura de descoberta – e mesmo que saibamos onde queremos ir, às vezes não conseguimos chegar lá.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 

A VIDA DOS LIVROS

De 26 de fevereiro a 5 de março de 2018.

 

O livro de Marco Polo é uma referência essencial nos relatos de viagens, sobretudo pela influência que exerceu na abertura de horizontes nas descobertas oceânicas dos séculos XV e XVI, em especial iniciadas pelos portugueses.

 

 

MARCO POLO E PORTUGAL
Em Portugal é conhecido o facto de um exemplar manuscrito constar da livraria de D. Duarte, devendo pensar-se que esse exemplar esteja relacionado com o que foi trazido pelo Infante D. Pedro de Veneza na década de 1420, depois das importantes deambulações europeias. Temos notícia da tradução impressa em 1502 (vd. imagem), escrita antes, feita por Valentim Fernandes com objetivos informativos, para os portugueses que se dirigiam ao Oriente, e políticos, para enaltecer o rei D. Manuel, tendo um texto introdutório que descrevia os territórios correspondentes à Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Sobre a Pérsia são parcas as palavras de Valentim Fernandes, que remete para o relato do próprio Marco Polo, onde se faz referência às regiões desde Tabriz (noroeste do Irão) até Caxemira. É essencialmente o mercador que está em causa, referindo as rotas comerciais, dando natural ênfase a Ormuz e aos produtos trocados em cada região, bem como aludindo ao clima, às riquezas naturais e às condições de segurança. Aí se fala da devastação operada pelos chamados incorretamente de tártaros, já que se trata de mongóis; da cidade de Saba, terra mítica dos magos que foram a Belém, adorar Cristo; da fauna, avultando as referências aos falcões e aos asnos; da flora exótica e desconhecida dos europeus; das práticas bárbaras dos habitantes da zona; da influência exercida pelos indianos nas práticas de magia; da beleza das mulheres de Timochain no norte da Pérsia e dos vestígios da presença de Alexandre Magno. A Pérsia interessa aos europeus como território da rota da seda e como repositório histórico de interesse superlativo. No caso português, a Pérsia fará mesmo parte dos títulos do rei D. Manuel, onde expressamente se refere a «conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia». Ormuz, por onde Marco Polo passou duas vezes, constituirá o ponto estratégico crucial da presença portuguesa no Golfo Pérsico – definida e iniciada por Afonso de Albuquerque. O primeiro português em terras do Golfo e na ilha de Ormuz, em 1489, foi porventura Pêro da Covilhã, enviado por D. João II em busca do reino do Preste João. O rabi Abraão de Beja e o sapateiro José de Lamego, que andaram na região, também terão estado em Ormuz, mas as informações destas explorações terrestres apenas chegaram a Portugal depois de terem sido contadas por Pêro da Covilhã ao Padre Francisco Álvares em 1520, quando foram estabelecidas relações com o Imperador da Abissínia…

 

O ESPÍRITO DAS CRUZADAS
Devemos lembrar os planos de D. Manuel para a conquista do Médio Oriente, desde o reino mameluco à ambição da tomada de Jerusalém, segundo os velhos ideais das cruzadas. Afonso de Albuquerque participava de tais ideias messiânicas – facto que não pode ser esquecido quando analisamos a sua ação. Como sabemos, em outubro de 1507 houve uma primeira conquista da praça de Ormuz por Albuquerque, já que o domínio da entrada do golfo Pérsico constituía uma condição essencial para o comércio do mar Arábico, sobretudo perante o insucesso na tomada de Adém. Assim se poderia enfraquecer a influência otomana no levante do Mediterrâneo, apesar de o império turco conhecer um período de expansão e consolidação no território persa. Ormuz era um importante centro de comércio, onde se trocavam alimentos, drogas, incenso, especiarias, marfim, metais e minerais, cavalos (persas e árabes), tecidos e joias, perfumes e produtos de luxo. Não foram fáceis, porém, os primeiros tempos para os portugueses, já que Albuquerque foi levado a abandonar a presença em Ormuz (1508), na sequência de um motim de capitães – tendo, mesmo assim, praticamente concluída a construção da fortaleza. A expansão otomana e a ameaça desse movimento avassalador levaram a uma aproximação da Pérsia a Portugal. Deste modo, o próprio Afonso de Albuquerque, pouco depois da conquista de Goa (1510), recebeu um enviado do xá Ismail – que apontou no sentido de haver possibilidades de uma aliança. De facto, havia objetivos convergentes no antagonismo relativamente ao Sultão do Cairo e à expansão turca… Contudo, foram tímidos os progressos no sentido de um entendimento formal, que perdeu premência com os sucessos das conquistas otomanas, com o enfraquecimento do poder do xá, com a incorporação do sultanato mameluco no império turco e com a morte de Afonso de Albuquerque (1515). Como se nota nas “Décadas da Ásia” de Diogo do Couto, o tom adotado é o de um relacionamento pacífico entre o Estado Safávida e o Estado Português da Índia…

 

FINALMENTE EM ORMUZ…
Em Abril de 1515, Albuquerque, “o cavaleiro grande e forte leão dos mares”, então governador da Índia, concretizaria a conquista de Ormuz, para mais de um século, e então pôde ter lugar o completamento e a consolidação do Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz. Sobre a importância da Praça, Diogo do Couto citará o vice-rei D, Afonso de Noronha, em 1552: “as outras fortalezas podem-se chamar membros particulares da Índia, mas Ormuz é corpo de que todos os membros rebem substância e se sustêm (…) nem a Índia se pudera sustentar sem a contratação de Ormuz”. Um fidalgo velho acrescentou que “Ormuz era a chave de toda a Índia, e cabeça daquele comércio da Pérsia e da Arábia, título de que os reis de Portugal tanto se jactavam”. Tomé Pires, logo em 1513, ao passar por Ormuz a caminho da China, descrevera, aliás, o reino como “rico e nobre” e “chave para a Pérsia” – “o povo é civilizado e humilde; tem espírito guerreiro, boas armas e cavalos”. Gaspar da Cruz em apêndice ao seu “Tratado das Cousas da China” escreveu sobre a cidade de Ormuz, onde viveu três anos (1560-63), que a urbe “tem todas as riquezas e abastança de todas as cousas que de fora lhe trazem” – sendo os rendimentos da alfândega muito vultosos. Couto não é, porém, pródigo na análise das vantagens económicas, limitando-se a referir a utilidade de Ormuz enquanto escala, onde as armadas deviam “invernar”. Se os navios de maior porte se recolhiam na baía de Mascate, os mais ligeiros ficavam em Ormuz, retornando a Goa em setembro/outubro… E, sendo o reino de Ormuz como que um protetorado português, reconhecendo-se o monarca como vassalo do rei de Portugal, a quem pagava um tributo anual (as páreas), o cronista trata as questões desse território como do Estado da Índia, até por haver uma fortaleza com capitão e contingente militar. Duraria até 1622 a presença em Ormuz, quando as forças persas e britânicas tomaram a cidade. Hoje, podemos com a distância do tempo analisar as relações de Portugal e da Pérsia, a partir dos acontecimentos, considerando as condicionantes geoestratégicas, a expansão do império otomano, os altos e baixos na situação muito vulnerável como é a do golfo. As narrativas, como a moderna historiografia o reclama, deverão ser equilibradas e não celebratórias nem anacrónicas na definição dos termos de referência. O importante é registar o conhecimento mútuo e compreender o futuro como capaz de entender a diversidade das circunstâncias e a complexidade dos factos. A diversidade das culturas, dos valores e interesses conduz-nos à necessidade de uma ponderação serena e objetiva dos factos e à procura de pontos de encontro.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins

De 20 a 26 de junho de 2016.

A «Crónica dos Feitos Notáveis que se passaram na conquista de Guiné por mandato do Infante D. Henrique» de Gomes Eanes de Zurara é um dos documentos fundamentais para a compreensão da decisão portuguesa de planear e concretizar as viagens pelos cinco continentes.

 

  

 

MOTIVOS PARA NAVEGAÇÕES


No capítulo sétimo da chamada «Crónica dos Feitos da Guiné», Gomes Eanes de Zurara apresenta cinco motivos para o interesse das navegações atlânticas. Antes de mais, lembra que o Infante D. Henrique não só manteve uma frota para defesa de Ceuta, mas também realizou o corso nas costas do Mediterrâneo. E quais as razões para a exploração da costa africana? A primeira era o desejo de conhecer a terra que estava para além das Canárias e do Cabo Bojador. A segunda correspondia à vontade de encontrar cristãos e portos seguros para estabelecer relações comerciais – pois se poderiam trazer para estes reinos muitas mercadorias que se haveriam de bom mercado. A terceira seria poder avaliar com rigor o poderio islâmico naquelas paragens africanas. A quarta dizia respeito ao facto de o Infante nunca ter encontrado na Cristandade aliado que o acompanhasse na guerra contra o poderio do Islão, pelo que desejava saber se em África haveria algum Príncipe cristão que se dispusesse a ajudá-lo em tal empresa. Finalmente, a quinta razão relacionava-se com o dilatar da fé cristã em novos territórios, ganhando para ela «todas as almas que se quisessem salvar. Como é sabido, Zurara escreve em 1452-53, em vida de D. Henrique, com acrescentos após a morte deste, em 1460. Deteta-se, assim, a crença na existência do Presbítero João (Preste João), rei mítico, primeiro localizado na Ásia, como refere o «Livro de Marco Polo», e depois em África, na Etiópia, onde se sabia haver uma tradição copta muito marcada. É já neste último sentido que D. João II envia a importante missão de Afonso de Paiva e de Pêro da Covilhã ao Cairo e ao Mar Arábico. Depois de inúmeros sinais contraditórios, desde a alusão aos cristãos nestorianos na Ásia até à comunidade de S. Tomé no Kerala, no sul do subcontinente indiano, tudo foi alvo de cuidadoso escrutínio, chegando-se à informação sobre a Etiópia. Fica sempre, porém, o enigma sobre o momento em que pode falar-se de Plano da Índia. Até 1460 é muito cedo, mas, designadamente pelas informações trazidas pelo Infante D. Pedro da sua viagem europeia, há a compreensão de que o comércio mediterrânico e o domínio político, militar e geoestratégico em torno da Terra Santa é crucial para o futuro. E a verdade é que Zurara se dá conta da necessidade de um plano que prolongue o espírito de cruzada, mas não esqueça a componente económica. Não se esqueça, além do mais, a queda de Constantinopla, cabeça do Império Romano do Oriente (1453), que dará uma importância acrescida à tentativa de chegada ao Mar Arábico pela rota à volta da costa de África… O apelo do Papa Calisto III (1455) para uma cruzada contra os turcos, depois da queda de Bizâncio, não tem eco ou sucesso, o que reforça a opção portuguesa de concentrar meios na intervenção africana. Importa, ainda, lembrar a sucessão de acontecimentos que afirmaram e consolidaram as navegações africanas dos portugueses. No muito curto reinado de D. Duarte (1433-1438) ocorre a passagem do Cabo Bojador (1434) e o desastre de Tânger (1437), tendo em 1441 tido sucesso a primeira operação comercial com aquisição de escravos (mercê dos aprisionamentos feitos por africanos), sendo em 1444 atingida a Costa da Guiné – então só um terço dos navios que navegavam nessa área pertenciam á iniciativa do Infante. Em 1455 a Bula do Papa Nicolau V concede ao Rei de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares conquistados ou a conquistar…


 

DEPOIS DA MORTE DO INFANTE D. HENRIQUE


Depois da morte de D. Henrique (1460), chegados os portugueses à Serra Leoa, há o arrendamento pela coroa ao mercador de Lisboa Fernão Gomes da exploração da costa africana – correspondendo à missão de explorar 100 léguas em cada ano. É o tempo da Costa do Ouro e da zona da Mina, num momento em que a intervenção do Estado abranda até pelo envolvimento de D. Afonso V na guerra da sucessão de Espanha (1475-76), sendo retomada a exploração direta com o Príncipe Perfeito. Entretanto, o acesso ao Golfo das Guiné permite o acesso ao comércio da malagueta, do marfim e do ouro – que irão permitir (com o comércio dos escravos) a sustentabilidade económica das navegações planeadas. O reinado de D. João II (1481-1495) marca uma viragem significativa na organização do Estado e na estratégia da expansão marítima – com a política do segredo e o reforço do «mar fechado». Houve avanços significativos no conhecimento e no domínio dos circuitos comerciais na costa ocidental africana, bem como na aprendizagem do regime de ventos e no cálculo da latitude a partir da inclinação solar e no tocante aos controlos costeiros do Sul do Atlântico. «Tempos de coruja, tempos de falcão» - eis o lema prático do Príncipe Perfeito. A centralização política, a limitação dos poderes da alta nobreza (com as mortes dos Duques de Bragança, D. Fernando, e de Viseu, D. Diogo, e de seus apoiantes), a aliança com Castela, o casamento do herdeiro com a filha dos Reis Católicos, a tentativa de criação de uma economia dominante na Península Ibérica que pudesse ser, na entrada do Mediterrâneo, base sólida de um Império universal – estas são as bases da política de D. João II. O comércio africano, não envolvia as mercadorias e o dinheiro do reino. Para trocar com os bens obtidos na costa de África, designadamente ouro e escravos, usava-se o trigo de Marrocos e das ilhas e as mercadorias da Europa, donde se recebia têxteis, tapetes, cavalos e latão. Em 1482 é fundada a importante feitoria de S. Jorge da Mina, entreposto fundamental para o financiamento das navegações, supondo-se que até 1530 os portugueses teriam transportado cerca de 150 mil escravos… Depois das expedições de Diogo Cão até ao Zaire e da chegada de Bartolomeu Dias ao Cabo da Boa Esperança, tendo sido trazido um emissário do Rei do Congo (1487), há a decisão de D. João II de destacar dois enviados para alcançarem a Etiópia, a fim de obterem informação sobre o comércio da Índia. Afonso de Paiva morreu, mas Pêro da Covilhã viajou pelo subcontinente indiano, pela Pérsia e pela África Oriental – tendo enviado a partir do Cairo uma relação do que vira e ouvira. Duvida-se, todavia, da chegada ao destino ou da utilidade efetiva dessa informação. Pêro da Covilhã fixar-se-ia na Etiópia, onde mais tarde partilhou algumas das suas informações… Atrás do envio destes espiões estaria o interesse nas especiarias da Ásia, cuja comercialização na Europa estava controlada pelos Venezianos, através do Mar Vermelho e do Mediterrâneo.


 

A INTERRUPÇÃO DAS NAVEGAÇÕES


Há diversos mistérios por desvendar relativamente à interrupção das navegações depois de 1488. A lista de razões é conhecida: teriam sido resistências cortesãs orientadas para beneficiar o comércio do Norte de África? Seria um tempo de espera para uma mais sólida preparação? Seria uma antecipação ou prevenção da eventual chegada de Colombo às Caraíbas? Seria a previsão de um conflito gerado pela reivindicação da conquista perante o reconhecimento pelo Papa aragonês Alexandre VI? O certo é que, entretanto, o casamento do Príncipe D. Afonso com D. Isabel filha dos reis católicos gorar-se-ia com a trágica morte (1491) do herdeiro de D. João. O Tratado de Tordesilhas (1494) torna-se necessário já não para regularizar as influências no Atlântico Norte, mas para definir a divisão do Mundo. O avanço do meridiano para ocidente do Arquipélago de Cabo Verde até 370 léguas, envolve um outro enigma: seria o Brasil já conhecido? Teria Duarte Pacheco Pereira feito o reconhecimento do território? A verdade é que as circunstâncias da segunda viagem à Índia capitaneada por Pedro Álvares Cabral apontariam nesse sentido. Em 1495 o Rei morre no Alvor e em 1497 retomam-se as navegações. E que buscam os navegadores da frota de Vasco da Gama? Na fórmula repetida: cristãos e especiarias. Mas oiçamos João de Barros no ponto crucial da decisão: «e porque D. Manuel com estes reinos e senhorios, também herdara o prosseguimento de tão alta empresa como seus antecessores tinham tomado – que era o descobrimento do Oriente por este mar Oceano – quis logo no primeiro ano do seu reinado acrescentar à Coroa deste reino novos títulos. Sobre o qual caso (…) estando em Montemor-o-Novo teve alguns conselhos gerais em que houve muitos e diferentes votos e os mais foram que a Índia não se devia descobrir». Mas o Rei decidiu avançar! Há, pois, um caminho gradual até chegar à Índia, que se inicia com o Infante D. Henrique, ainda sem objetivos últimos definidos, aliando o espírito de cruzada e finalidades político-económicas, que se encontram delineadas por Zurara, em temos que merecem uma especial atenção, pelo rigor estratégico e um especial aproveitamento das circunstâncias internacionais, em especial o reforço do poder turco no Mediterrâneo oriental.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença