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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O ACASO NÃO COMANDA A VIDA…

 

CNC _ O ACASO NÃO COMANDA A VIDA.jpg

 

“A Borboleta Monarca faz durante a vida uma única viagem em sentido inverso do feito pela geração anterior, sem aprendizagem. Seria tal possível por acaso?

 

Publicamos a apresentação do Livro “Beyond Darwin”, de Miguel Ribeiro, ocorrida na última sexta-feira, no Centro Nacional de Cultura.

 

Edgar Morin tem ocupado uma parte importante do seu tempo na sensibilização para a importância da complexidade. Não é possível o desenvolvimento humano sem a força estimulante da aprendizagem e sem a recusa das explicações simplistas. Por isso, entende que uma atitude pessoal baseada na autonomia e na responsabilidade exige: prevenção do conhecimento contra o erro e a ilusão; ensino de métodos que permitam ver o contexto e o conjunto, em lugar do conhecimento fragmentado; o reconhecimento do elo indissolúvel entre unidade e diversidade da condição humana; aprendizagem duma identidade planetária considerando a humanidade como comunidade de destino; exigência de apontar o inesperado e o incerto como marcas do nosso tempo; educação para a compreensão mútua entre as pessoas, de pertenças e culturas diferentes; e desenvolvimento de uma ética do género humano, de acordo com uma cidadania inclusiva.

 

A obra de Miguel Ribeiro, que ora se apresenta, “Para Além de Darwin, a Hipótese do Programa” corresponde, no essencial, a estas preocupações. Tenho acompanhado com muito interesse este caminho reflexivo e disponho-me a falar da obra, apesar da sua dificuldade, em homenagem ao seu autor – e em nome de uma exigência humana, que é a de termos de entender os limites, refletindo sobre eles. Ao ler as páginas deste livro, começando na entrevista imaginária, e prosseguindo nas quatro partes: Uma Alternativa a Darwin, Universo, A Prova do Genoma, e Segundo o Prisma do Programa – senti-me muitas vezes transposto para antigas leituras de Teillhard de Chardin, em nome de uma audaciosa abertura de horizontes, já que as grandes interrogações sobre o mundo e a vida estão sempre dominadas por um véu de incerteza que não podemos nem devemos ignorar. E lembrando-me dos universos romanescos, devo recordar que esta obra tem o seu quê de extraordinário policial ou de um conto misterioso de Jorge Luís Borges. O autor me perdoará, mas senti-me em dados momentos na biblioteca de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, em busca dos segredos do universo, mas também nos estranhos labirintos em que as paredes se tornam desertos e em que o fio de Ariadne de Teseu parece tornar-se inútil.  

 

Há uma pergunta fundamental de que temos de partir para compreender esta obra de Miguel Ribeiro: Por que razão o acaso é incapaz de gerar complexidade? De facto, o primeiro obstáculo ao aparecimento do nosso universo pelo acaso é o conjunto de leis e constantes, que designamos como “coincidências cósmicas”. Para lidar com a questão destas coincidências, a teoria mais comummente aceite é que existem múltiplos ou infinitos universos. Ora tanto o darwinismo como a explicação da origem de tudo através de um programa correspondem à mesma lógica no que diz respeito à emergência e à evolução do universo e da vida. E tentemos explicar: se o acaso é incapaz de gerar complexidade, um programa torna-se indispensável para explicar o universo e a vida. Um programa, para Miguel Ribeiro, não é sinónimo de um Deus criador, mas um conceito indispensável para definir um sistema de informação que explica de onde vimos, como tudo começou e para onde vamos.

 

Para falar desse programa, temos de partir do segundo princípio da termodinâmica, segundo o qual a evolução de um sistema isolado (como o universo) tende para uma desorganização progressiva. Conhecemos o exemplo clássico do copo que se parte, mas não pode reconstruir-se espontaneamente. Afinal, sem um programa, a única tendência possível depois do Big Bang, seria a homogeneidade total, e nunca uma dinâmica evolutiva, tal como encontramos no cosmos. Para o autor, sem programa, a história do universo só seria compreensível na lógica termodinâmica se contada por ordem cronologicamente inversa, ou seja, desde o nosso universo complexo até às partículas que se seguiram ao Big Bang.

 

Importa, assim, considerar os conhecimentos das várias ciências que concorrem entre si para explicar o universo: a biologia, a química, a física ou a filosofia. O universo é, assim, uma máquina de movimento perpétuo, que segue “uma evolução para a complexidade por uma teia de eventos obedecendo ao princípio da causalidade”. Lavoisier tem razão: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma… Deste modo se explica o universo como se fosse um computador ou uma máquina do tempo. Estamos não só perante a história do universo, mas também diante da explicação das leis, das constantes e das equações matemáticas com que lidamos, não como uma cadeia de acasos, mas como parâmetros de um software.

 

No diálogo do autor com Darwin, importa ainda perguntar sobre a seleção natural. Será a luta pela vida um elemento crucial? No entanto, para Miguel Ribeiro a seleção natural não explica a evolução da vida. Longe de um papel criativo temos apenas uma resposta natural. Há uma cadeia evolutiva, mas o que importa para o autor é contestar a ideia do acaso na origem do universo. É essa a base desta investigação e das intuições que comporta. Centremo-nos, por isso, na origem da vida. Para o autor: “a perspetiva dominante é a de que uma vez que a ciência consiga explicar o aparecimento espontâneo de estruturas/moléculas tão complexas como a membrana celular, os ácidos nucleicos e os aminoácidos, na presença de energia, a emergência da vida estaria essencialmente explicada”. Mas há muito mais a considerar – para haver uma linha de produção a funcionar é preciso que haja uma estratégia, um objetivo, uma direção, um caminho. A fábrica não se move espontaneamente. Também uma bactéria, uma planta ou um mamífero pressupõem um programa…

 

A analogia entre computador e universo torna-se importante nesta reflexão. E Miguel Ribeiro dá-nos uma metáfora: num jogo de computador, temos um diagrama: a corrente elétrica que alimenta o computador é um fluxo de eletrões, convertidos pelo programa em padrões de zeros e uns, transformados na projeção audiovisual no monitor. Do mesmo modo, o programa do universo converte objetos quânticos em padrões de átomos que o cérebro dos seres vivos transforma em perceção. Ora nem a projeção no monitor nem a nossa perceção revelam o verdadeiro substrato, a razão de ser – respetivamente padrões de zeros e uns e padrões de átomos e radiação. Tudo isso está antes…

 

Assim, deixando de lado as explicações religiosas e da ciência normal de Kuhn, descobrimos uma nova fronteira: a da organização do computador, defendida, entre outros, por Seth Lloyd e Nick Bostrom. Mas para abraçar coerentemente o universo como se fosse um computador, é necessário renunciar à premissa de mutação aleatória que obriga a aceitar o primado do acaso, na linha de Cournot. E eis o ponto nodal da obra e do pensamento do autor, numa tentativa de mostrar que a complexidade é incompatível com o acaso e propor um modelo do surgimento e evolução da vida consistente com o universo visto como caminho de informação. Não, não o acaso que comanda a vida…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

57. DA SEGURANÇA NA VIDA À LIBERDADE NA ARTE

 

Há valores essenciais que permanecem sempre os mesmos. 
Sejam éticos, morais, consuetudinários ou jurídicos, permanecem semelhantes no decorrer dos séculos.   
São exemplos o não matar, não roubar, não agredir, não violar, não causar sofrimento.
Consoante a época e o seu contexto, assumem hierarquias diferentes, significados sociais variáveis e novas prioridades. 
Desde o teocentrismo ao antropocentrismo, do século das luzes aos tempos hedonistas e utilitaristas, incluindo a era atual, dominada pela felicidade e pelos direitos subjetivos, tais valores subsistiram continuamente, fazendo parte do sistema e sendo aceites como politicamente e socialmente corretos. 
Mesmo que as normas vigentes sejam minimais, plebiscitadas e não sacrificiais, e não maximalistas e sacralizadas, estamos longe de um hipotético grau zero de valores e de uma total libertação da teoria da culpa. 
Houve e há sempre um núcleo estável e seguro de valores geralmente aceites, a que podemos adicionar a honestidade, a proibição da crueldade e da violência em geral. 
São parte integrante da nossa vida em segurança, da seguridade na nossa vida. Integrando o sistema como maioritariamente aceites, não há alternativa. 
Ganhou o sistema, o politicamente e socialmente correto nas nossas vidas.
Menos na arte.
Porque a arte é um espaço onde tudo é possível em liberdade. 
Nela podemos colocar o melhor e o pior de nós.
É a arte pela arte em liberdade pela liberdade. 
Mesmo quando não se ganha ao sistema, ao status quo, ganha-se em espaço de liberdade, de criatividade, inventividade e no ir mais além. 
Mesmo se impactante e chocante, isso não significa que quem a quer usufruir não a racionalize e interprete com sentido crítico, sabendo distinguir entre a ficção e a realidade, entre a fantasia ou ilusão do onde tudo vale e é possível e o tido como correto e em segurança no dia a dia das nossas vidas.     

 

26.06.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


53. A VIDA É MACROSCÓPICA

Macroscópico é sinónimo de megascópico. 
E antónimo de microscópico.
A visão do mundo microscópico é fazível com microscópios. 
A visão do mundo macroscópico é feita a olho nu ou por telescópios.
O microscópio amplia imagens de coisas muito diminutas ou reduzidas. 
O megascópio projeta sobre a tela a imagem aumentada do objeto.
O telescópio amplia imagens de objetos situados a grandes distâncias no universo.
A visão humana comporta a microscópica e a macroscópica.
Os corpos visualizados a olho nu integram a visão macroscópica.
O olhómetro é o seu instrumento de medição natural.
Esta visão física e material das coisas adapta-se a outras valências da vida humana.
Em filosofia uma visão macroscópica refere-se a uma conceção ampla ou abrangente.
O mesmo sucede quando se tem uma mundividência macroscópica da vida.
O planeta em que vivemos é diminuto, a brevidade da vida humana um bem escasso.
O melhor remédio é uma perceção larga da vida e do seu lugar no universo.
Trabalho, família, afeição, amor, amizade, esforço, espírito de sacrifício, são parte dessa visão macroscópica, como a alimentação, saúde, habitação, mas não chegam. 
Há também os interesses ou prazeres exteriores ou interligados ao labor diário, que não exigem prontas decisões, não absorvendo as faculdades exaustas por um dia de trabalho.
A incapacidade de ter interesse por tudo aquilo que não tenha uma importância prática na vida, causa um gosto de não viver. 
O insistir obsessivo no êxito de competição, no sentimento de triunfo em que só é devido respeito ao vencedor, no êxito pelo êxito, no dinheiro pelo dinheiro, no consumir impulsivo, tem um preço se exclusivo ou excessivo, pode causar aborrecimento e tédio, se incapaz de utilizar de modo construtivo e inteligente os momentos de lazer.
A vida é curta e não nos permite ter acesso e interesse por tudo, mas é fundamental que haja sempre interesses, essenciais e subsidiários, adequados e proporcionais, para a preencher, e quanto menos à mercê do destino melhor, dado que, perdendo-se um, o ideal é o recurso imediato a outro. 
Mesmo que se compare o cérebro humano a um computador, que se vai degradando com o tempo até não funcionar, em paralelo com a curva descendente da existência de cada um até à morte, esse mesmo cérebro, à medida que se aproxima do fim, afeiçoa-se e aprecia cada vez mais, tantas vezes, a beleza do mundo e as coisas belas da vida, como a música de Bach, de Wagner ou de Chopin, uma pintura, uma leitura, ou o silêncio.
Porque a vida é mais abrangente e larga que o microscópio. 
É macroscópica.

 

29.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

DIOGO FREITAS DO AMARAL (1941-2019)

freitas do amaral.jpg

 

“I've lived a life that's full
I've traveled each and every highway
But more, much more than this
I did it my way”
Vivi uma vida cheia
Viajei por todas as auto-estradas
Mas mais, mais do que isso
Fi-lo à minha maneira

 

     e omitiu de propósito

And now, the end is near
And so i face the final curtain
Agora, que o fim está perto
E que enfrento a cortina final

 

Não o fez por esquecimento - escreveu-se -  mas, certamente, para evitar a exposição pública de constrangimentos da plateia de amigos que assistia ao lançamento do seu último livro no Centro Cultural de Belém.

As feiras de outras vaidades deixou pelo caminho na hora certa. A poesia, soube-o a tempo, foi a virtude reencontrada.

É necessário, digo, o respeito pela cedência da força face à doçura. Por aí o reencontro com a delicadeza em que se faz saber a nós mesmos que o domínio do nosso sentir só se faz no sentido íntimo do outro. É o único progresso que nos humaniza porquanto por aí se partilham as solidões e as poeiras da vida.

O amor como todos os sentires, abre fendas, e a ideia de um recomeço implica sempre a sua transformação numa associação, enfim, será quando um género de fraternidade das armas da política, da economia, da justiça, dos estatutos, dos compromissos, da pobreza, fica desamparado pois dele em nós, não se exigiu o suficiente e chegou a nossa partida!

Já não é possível recomeçar-se mesmo que se recusem falhas, fazê-lo teria sido o segredo maior da coragem, a adesão da inteligência à verdade. Diria mesmo que para a abordagem da razão, talvez nem uma alma de criança baste; tudo é embrionário no fim. Sentiremos então que encontraremos tudo pelo deslumbramento das fronteiras que afinal se não traçam?

Se assim for, o amor venceu a morte e esta é doravante oferecida numa participação eterna na vida.

Se assim for, não há justiças compensadoras noutros locais que não aqui. A paz no mundo tem este preço, bem-haja quem teve no coração uma moral que soube o quanto a equidade respeita a dignidade humana e se funda numa sociedade livre.

 

   Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

A VIDA, O SEU TERMO, O SONHO, A NÃO ESPERANÇA: EIS A SUA MATÉRIA

 

A desproporção de forças infetantes que se reproduzem sucessivamente, a grande praga que dizima os seres, que carcome as rochas, os ares, as águas e vaza os lixos na vida, refugo letal onde se adormece um sono, assim a Absurdidade comunica os seus poderes termiteiros e mercantis, somatórios ávidos do ter.

 

A profundidade a que todos, de um modo ou de outro, permitimos que no mundo se venceria pela força do que constrange e obnubila, permitiu que os domínios interditos de quem mata a espessura da vida fosse contada, e mesmo exposta, sem que uma multidão em número e vontade excedesse a soma das forças de todos os que fizeram chegar o mundo ao nível do lixo como desígnio.

 

Todavia as silenciosas contas bancárias dos responsáveis pelo suposto não saber dos atos criminosos que provocaram e provocam, elevam os rendimentos ao limite superior do possível e reduzem ao mínimo qualquer custo de manutenção do esconder dos seus atos, agindo como inimputáveis pois a máquina construída os protegerá passo a passo.

 

A terra continua a ser devastada pela violência dos monstros que alcatroam mandos de morte com a finalidade de que, à superfície, o cenário tenha brilho e atraia aparências de vidas que não denunciam o simulacro do que lhes é dado viver já que no imediato nem o reconhecem como tal.

 

Na fotografia, este menino dorme e desconhece que também lhe simularam o céu sob o qual adormeceu.

 

Sonhará este menino com o abrir de uma caixa própria, uma caixa de algo que lhe é muito precioso e o embala até a encontrar vazia e do sonho acordará num sem número de pesadelos reais?

 

Desconheço as contabilidades que se fazem neste pseudo mundo que troca capital por lixo e no qual adormecem crianças em nojentos colchões que boiam nas lixeiras, lixeiras criadas pelos manipuladores dos fátuos fogos que obscurecem até o futuro das luzes das estrelas.

 

Promove-se a guerra de todos contra todos: assim Hobbes, assim o emaranhamento das corrupções, teia de submissões articuladas no plexo do lixo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA: A PRISÃO DA VIDA POR INTEIRO

 

O neto da D. Amélia - modista exemplar e orgulhosa de tanta sabedoria na feitura de qualquer modelo que lhe requeresse cuidados especiais – abriu-me a porta e balbuciou qualquer coisa. Entrei e esperei no hall onde uma perna artificial estava dependurada num cabide e agarrada a um sapato preto, parte integrante da perna, e sobre ele uma serie de panos e um punho de lã de alfinetes.

 

Soubera que a minha muito querida modista tinha tido a desgraça de aprender a dor da amputação de uma perna, devido a tremendos problemas de artrite reumatoide. Levava-lhe naquele dia, musseline para uma blusa e um ramo de flores escolhidas ao dedo por mim.

 

Mal chegou ao hall, rápida, na sua cadeira de rodas, depositei-lhe as flores no regaço e debruçada, dei-lhe o mais ternurento abraço que pude. Um abraço de 28 anos de modista e cliente amigas.

 

A D. Amélia retirou logo um lenço do bolso para enxugar a lágrima, apertou as flores contra o peito e disse-me com um largo sorriso

 

Ora vamos lá!, que saudades!

 

Pegou na perna pelo pé que estava dependurada no cabide e lá fomos as três para a saleta das provas.

 

Perguntei-lhe

 

Mas não usa a perna, D. Amélia?

 

Ó menina! Claro que não, até me faz feridas este trambolho. Sabe?, o hospital deu-ma e nem sabe que número calço e como vê este sapato é enorme. Depois o sapato tem ar de sapato de freira a fingir atacadores e tudo, e a perna, tem a cor de ter ido à praia verão e inverno. Olhe um mamarracho destes a que tive direito por tudo o que sofri!, e como prefiro andar nesta cadeirita de rodas, não quero usar a perna, mas faz-me um jeitão. Ao cabide não lhe chego:logo, ponho lá a perna pendurada por esta argola que o meu neto lhe arranjou, e, nela coloco os lenços ou alguns trapos de recorte a que chego facilmente. Quando vou às provas, levo-a comigo, e, além de ser fonte de riso meu e das clientes, coloco-lhe em cima os fatos a provar: uma utilidade pura!  Um buracão também, que, às vezes, tenho de virar ao contrário se da zona da coxa da tola, cai algo lá para dentro. É oca como tudo o que é tolo!

 

Amélia, não tem dores? Quis já começar a trabalhar? Não é cedo? Não poderei eu pedir outra perna para si?

 

Não, não se incomode. Já pedi eu e deram-me outra igual. Tinha duas e só me amputaram uma. Era uma cegada quem as via ali dependuradas…«ah!, afinal tirou as duas perninhas?» e eu que nunca fui de ter mais do que aquilo a que tenho direito. Veja bem que até um dia até me assustei: olhei para as duas pernas dependuradas e de repente olhei para mim. Não sei como foi isto, mas parece que me assustei pois sabia que só me faltava uma, mas tudo é possível. Então mandei o meu neto entregar uma delas ao Sr. Dr. lá do hospital, e veja que ele perguntou de jeito bruto

 

Para que é que eu quero isto?

 

E o meu neto, que se não fica, respondeu-lhe

 

Mas para a minha avó já serve não é? E veio-se embora.

 

E ria-se a bom rir, olhando por cima dos óculos como quem pergunta: percebes?

 

Bem! D. Amélia essa recuperação vai correr bem.

 

Ah! Pois vai, não sei se lhe disse, mas o estafermo do meu ex-marido que chegou a advogado à conta dos meus alfinetes e da minha coluna, ele morreu. Viu? Estava bem e morreu. Estava com a amante e morreu. E eu ainda cá estou! Foi a vida do Dr. Ai que linda musselina me traz. Que vamos fazer?

 

Olhe D, Amélia – menti – ainda não sei. Tem alguma sugestão?

 

Claro que sim. Não é o seu marido muito ciumento?

 

Sim.

 

Então vou fazer-lhe o que a musselina der, mas vai andar vestida unicamente com a macieza nua dela. Ou seja, vai andar linda como sempre a vi, todavia despida sim, de uma forma mais completa. Desde que me cortaram a perna ou desde que parei de chorar, mudei a minha criação nas roupas. Acho que o corpo, quando se veste, muitas das vezes perde a definição e assume uma pele que a roupa lhe empresta. No fundo, é melhor que tudo acabe confundido.

 

Perna no cabide ou sem perna na cadeira, tudo carrega presenças, até o que é volume vazio. E nós andamos aqui a enfeitar a epiderme que tantas memórias criam ao corpo e um dia abalroam-nos. Olhe menina, é o que mais sinto que me fizeram. Abalroaram-me e deixaram-me com uma parte de mim e uma crosta a segurar o resto. É uma espécie de uma guerra, mas constante.

 

Enfim, não preciso de medidas, já vi que são quase as mesmas: fronteiras que conheço há tantos anos.

 

E como está o paizinho? Doentinho não é? Chatinho, não é? Ai desculpe, mas ontem vi um filme em que a filha punha o pai no alpendre à hora do trem e um dia ambos viram o tempo e começaram a dar-se melhor. 

 

Teresa Bracinha Vieira