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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - I

 

Minha Princesa de mim:

 

    Entre os escritos demasiados e múltiplos que fui guardando - e ocasionalmente destruindo - vão sempre ficando uns rascunhos e alguns textos arquivados daquele meu projeto, em português, de uma "História Dual da Igreja Católica" (de que já te falei) e dum livro, já acabado, em francês: Éloge de la Jouissance. Tem este duas partes: Les Menus Plaisirs e La Grandeur de la Joie. A primeira estende-se por três capítulos (Les Innocents; Les Malicieux; Les Inesperés), em que vou "moralizando" acontecimentos e feitos da vida quotidiana, desde conversas e tertúlias de amigos, almoços e vinhos bem saboreados, feitiços namoradeiros, aos prazeres do campo e do mar, da leitura, das artes e da música, ou desde momentos de gozada malícia ou gratuito humor às surpresas que nos oferecem gestos próprios ou alheios de generosidade e de carinho humano. Já a parte segunda, talvez um pouco mística, contempla a alegria como trindade: La Joie de vivre la Vie, dans l´Amour et la Mort.     

 

   Finalmente, um apêndice discorre sobre a lembrança e o esquecimento: La Joie du Souvenir et l´Artifice de l´Oubli.  Muito do que ali está dito em francês já terá sido escrito no português familiar e chão das cartas que, por tantos anos, te fui escrevendo. Não direi que esta, agora, seja o último segredo ao ouvido da tua leitura, mas faz certamente parte das minhas derradeiras confidências, alimentadas por pedaços do meu pensarsentir, colhidos no tal acervo de escritos meus que te nomeio acima, sem sequer nele aí os localizar, pois, muito provavelmente, logo de seguida irei destruir os respetivos textos originais. O que doravante te vou enviando poderá, assim, ser ou não novidade para ti, mas nada terá de construído. Apenas será um último aceno de memórias ou lembranças que apenas vou revendo porque delas me despeço. Dizendo-lhes, como os antigos no fim de um auto teatral: acta est fabula!


   Longe de mim qualquer intento de recordar ou registar algo para quaisquer galerias, antes pelo contrário pretendo apenas  -  sempre guardadas as evidentes distâncias intelectuais, e não só - emular o retrato de Michel de Montaigne, que Stefan Zweig pinta assim: Poucos homens se bateram com mais dedicação e empenho para preservar o seu eu mais íntimo, a sua essência, de qualquer mistura, de qualquer atentado vindo da espuma perturbadora e malévola da agitação dos tempos, e poucos terão conseguido salvar do tempo, e para sempre, o que eles viveram, o seu eu mais profundo. 

 

   Montaigne travou tal combate para salvaguardar a sua liberdade interior, e esse terá sido, talvez, o mais consciente e tenaz jamais travado por um espírito humano, sem ter em si nada de patético nem de heroico.

 

   Seria violência a Montaigne força-lo a pertencer ao grupo de poetas e pensadores que verbalmente combateram pela «liberdade da Humanidade». Ele nada tem dos discursos inflamados nem das explosões de Schiller ou Lord Byron, nem tão pouco da causticidade de Voltaire. Fá-lo-ia sorrir a ideia de querer transferir para outros seres humanos, e ainda mais para as massas, algo de tão pessoal como a liberdade interior. Detestou, com toda a alma, os reformadores profissionais do mundo, os teóricos, os mercadores de ideologias. Já sabia bem demais quanto custa o aturado trabalho de manter consigo, em si mesmo, a independência interior...

 

   ... Assim, não tem Montaigne uma biografia. Não se confronta seja com quem for, nunca se destacou, pois nunca quis contar com audiências nem aplausos.

 

   Eu tampouco, sem escamotear esse abismo que me separa dos merecimentos de Michel de Montaigne, que não tenho, nem sequer sonhei ter. A minha única obsessão, e contínua perseguição interior do dom da vida, foi a busca da independência da minha inquirição, como modo de ir percorrendo e discorrendo o tempo que me foi dado, no ato de um esforço alegre, na liberdade de filho de Deus. Sou visceralmente alérgico a vendilhões de dogmas e a gurus de tudo o que as culturas gripadas vendem como sendo política, económica, social, literária ou culturalmente correto. Por outro lado, fui sempre tentado a considerar que não é necessariamente necessário (pleonasmo voluntário e significante) ser-se muito inteligente, nem erudito, nem eloquente, para se ser culto ou, muito simplesmente, um pensador dedicado à procura de entendimento das coisas (pormenores de tudo) e, muito humanamente, de mim, de mim e da minha circunstância, de mim como o de mim que sou eu, de mim como o eu que cada um dos outros, enquanto ele mesmo, também é, em tudo o que a condição humana nos faz comuns. Também aí busco a inabalável raiz da minha fé católica: nessa comunhão com Aquele que é tudo em todos. Eis a grandeza, a raiz mística da Alegria.

 

   Muitas vezes te falei da fidelidade como coluna vertebral da pessoa moral, mas também te referi sempre que ela não é, não pode nem deve ser, um facto consumado: o ecossistema do ser moral não é um tempo parado, estagnado, como se a vida, movimento divino, pudesse parar. O que, por paradoxal que pareça, tampouco significa que o tempo moral seja uma continuidade, já que, como escreve Laure Barillas, interpretando o seu mestre Vladimir Jankélévitch, ele tem uma temporalidade própria, a do Súbito e da conversão: O tempo da moral só pode ser o da descontinuidade, feita de instantes que se opõem à mediação olvidável da duração. Afirma o próprio Jankélévitch no seu Le Pardon (Éditions Montaigne, 1967): A vida moral não é um processo, mas um drama, um drama pontuado por decisões custosas, O progresso moral só avança pelo propositado esforço de uma decisão intermitente e espasmódica e na tensão dum incansável recomeço; o querer, incessantemente querendo e voltando a querer, em caso algum conta com a inércia do movimento adquirido, nem nunca vive das rendas do mérito acumulado. E é assim que o progresso moral recomeça sempre do zero. Não há outra continuidade ética além dessa esgotante continuação do reimpulso e da retoma; o progresso moral é, portanto, mais laboriosamente continuado do que espontaneamente contínuo, assemelha-se mais a recriar do que a crescer.

 

   Neste contexto ganha o seu sentido aquela expressão do mesmo filósofo no seu Traité des Vertus (Flammarion, 1983-86): O que está feito está por fazer. E assim entendemos como, no tempo descontínuo da moral, tudo fica sempre por fazer, por ser retomado: Ce qui est humain ce n´est pas l´oubli mais la mémoire, la vigilance et la fidélité (em La Presse Nouvelle Hebdomadaire, 15 de junho de 1979).

 

   Tenho trazido comigo, como regra de oração e de vida, que manter-me humano e procurar ser mais cristão passa, necessariamente, pela identidade da minha memória, da minha vigília, da minha fidelidade a ser.

 

   Noutras cartas, Princesa de mim, talvez te traga reflexões, no tempo atual, sobre a diferença entre crime e pecado, esquecimento e perdão. E sobre a face dogmática e canónica da igreja clerical, dessa que lamentavelmente teima em permanecer como poderio temporal - ao ponto de até pretender que Jesus Cristo assim como tal a instituiu - e vai fechando os olhos e os ouvidos aos ensinamentos e profecias do Evangelho do Mestre. E, ainda infelizmente, reforçando a razão desse conceito de pecado (que tantas vezes te tenho referido): O pecado é a paixão dos nossos limites. Tal clerical instituição ganharia em reconhecer-se naquela máxima de Antoine de Saint-Exupéry que nos ensina que o ser humano se conhece pela medida do obstáculo que supera. A tal questão voltaremos, minha Princesa de mim. Até lá, deixa-me só, uma vez mais, recordar o "meu" Ortega, que tanto me fez refletir no ser e na circunstância (eu sou eu e a minha circunstância), para te dizer (ideia central da minha "História Dual da Igreja") que a igreja clerical, o instituto canónico e os seus funcionários, é a igreja circunstancial, que se foi arranjando com tempos e modos da história... A Igreja Católica, a assembleia universal dos fiéis que, na sua múltipla diversidade, constituem o corpo místico de Cristo - essa, sim, é a Igreja mesmo. E talvez tenha chegado a hora dos senhores clérigos começarem a pensar na Igreja, não como sua empresa ou seu estado político, algo que simplesmente dirijam ou em que "sacramentalmente" mandem, mas como povo em si mesmo sacerdotal. O grande desafio à Igreja hodierna é procurar pôr direito o muito que tem arrastado às avessas. Já agora, lembrados de Francisco de Assis, que viveu com tão grande alegria o exemplo evangélico de Jesus, que nunca quis fundar um organismo hierárquico, nem mostrou qualquer condescendência pelos que pretendiam ter primazia no Reino de Deus...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Já que teimei em voltar a escutar o concerto em ré menor, para piano e orquestra, de Johann Brahms, ouvindo ainda o "prelúdio" verbal de Leonard Bernstein - que dirigia a Filarmónica de Nova Iorque e o solista Glenn Gould -, tal como te contei em carta anterior, deixa-me traduzir-te uns trechos da conversa entre Seiji Ozawa e Haruki Murakami sobre a audição que, eles também, fizeram deste registo. Não o fiz na outra carta, para deixar-te só com as palavras de Bernstein e o meu sentimento. Para começar, o romancista e melómano Murakami comenta, pouco depois da música começar, que tudo aquilo lhe parece muito lento, tão surpreendentemente lento que talvez justifique a prévia advertência de Bernstein. Ao que o maestro Ozawa retorque: É evidente que este trecho é tocado de acordo com um ritmo binário amplo, dois tempos que se decompõem assim: um dois três, quatro cinco seis. Lenny dirige-o como se houvesse seis, porque um simples ritmo binário seria demasiado lento para manter um intervalo consistente entre as batidas. Não tem opção. Em geral, antes será um e e, dois e e, dirigido um...dois... É claro que há uma data de maneiras de o fazer, mas acontece que quase todos os maestros o fazem assim. Aqui, com um tempo tão lento, repito, Bernstein não podia manter um intervalo consistente entre as batidas, e por isso se viu obrigado a dirigir em: um dois três, quatro cinco seis. Eis por que falta fluidez à orquestra e ela se atola.

 

   E eis que então, nesta conversa - quiçá como sinal de que um grande músico está sempre atento , e aberto, não só à escrita original da música, mas também à recriação que, vez após vez, a faz acontecer - quando Murakami lhe aponta, logo à entrada do piano, que este também vai lento, Ozawa responde: Sim, mas tal parece-me bastante aceitável, sobretudo quando nunca se ouviu este trecho noutra versão. Temos a impressão de que foi escrito assim. Dir-se-ia quase uma ária bucólica, tocada com grande descontração...   ... Escute bem: quando chegamos a esse passo é impossível não nos encantarmos...

 

   Atrevo-me a dizer-te que a avaliação global deste registo do concerto de Brahms - por Ozawa e Murakami - não busca ser abonatória, provavelmente pela cedência de Bernstein à imposição de Gould... E, como admirador, discípulo e assistente de Lenny, que o maestro japonês sempre foi, até lhe custou discordar daquela iniciativa do mestre se explicar à plateia antes do concerto. Todavia, tem plena consciência de que, se Bernstein tivesse tomado a outra opção, isto é, a de encarregar um assistente de o substituir na altura, o escolhido seria forçosamente ele próprio, Seiji. Susto enorme, que até em sonhos o assombra... Mas a amizade verdadeira é fiel, não se deixa ressentir com faltas ou mesmo pequenos defeitos daqueles a quem bem queremos. O que não impedirá Ozawa - pois que a amizade também deve ser lúcida - de estabelecer outra comparação: a dessa interpretação de Bernstein com Gould com uma deste mesmo pianista canadiano com a Cleveland Orchestra, dirigida por um assistente de George Szell, pois este se recusara a seguir os tempi queridos pelo solista. Traduzo-te o trecho dos comentários durante a audição do solo para piano do primeiro andamento do concerto:

 

Ozawa - É surpreendentemente lento, mas contudo, assim tocado por Gould, funciona. Não ficamos com a impressão de que o tempo está errado.

 

Murakami - Ele devia ter um sentido muito afinado do ritmo. Isto é, era capaz de manter um tempo tão espreguiçado e simultaneamente inserir o som do piano na estrutura da orquestra...

 

Ozawa - Tinha uma compreensão do fluxo musical à prova de bala. E, por outro lado, o Lenny tinha razão ao dizer que ele se atirava de corpo e alma...

 

   Como terás percebido, Princesa de mim, delicio-me com estas conversas entre músicos e melómanos [alguns fãs quiçá não possam ler uma partitura, mas talvez utopicamente a saibam de ouvido e de cor(ação)]. Confirmam-me, como crisma na fé, que o universo da música é o do tempo de encontros inesperados com uma revelação sempre irrepetível no mesmo modo...

 

   Acontecimento, eis tudo o que ela é, entrega de um inexplicável de nós a um momento de sons que nos cativam. Assim também entendo os títulos de livros de Vladimir Jankélévitch: L´Enchantement Musical (o encantamento ou feitiço musical), La Musique et l´Inneffable (a música e o inefável), Debussy et le Mystère de l´Instant (Debussy e o mistério do instante). E creio que cada instante é a chave da escuta musical. Por isso me retiro agora mesmo da escrita desta carta, e não ouvirei mais música hoje. Amanhã, esteja cinzento e chuvoso o dia, ou radioso de sol já primaveril, sozinho novamente escutarei o concerto em ré menor de Brahms, para piano e orquestra, interpretado por Bernstein, com a Sinfónica de Nova Iorque, e por Glenn Gould. Sem me lembrar já dos comentários que aqui te traduzi, nem de emoções das minhas audições passadas. Mas tão somente, porque nunca pude evitá-lo, com o sentimento de gratidão por uma partilha procurada. Por quem dá e quem recebe. "Ortodoxos","puristas", "fundamentalistas" poderão julgar de outro modo, mas eu pensossinto que as vidas e seus dons, sejam reflexão profunda ou audácia liberta, entregam-se-nos, não para serem julgados, mas para que partilhemos um novo salto, um passo, um encanto, uma interrogação. No caso presente, sou comovido pela coragem fraterna e humana de dois intérpretes (um grande maestro e um pianista genial) que aceitaram revelar-se publicamente na simultaneidade das suas ideias divergentes, das suas respetivas imperfeições mas, sobretudo, no esforço passional de busca da compreensão de uma oferta de música escrita pelo alemão Johannes Brahms um século antes, quiçá sob o desgosto da morte trágica do seu amigo Robert Schumann. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta já datada de 24 de junho de 2018, publicada no blogue do CNC, falei-te de Gabriel Fauré e do seu Requiem. Dizia-te então, citando o compositor francês que eu apelidara de "agnóstico muito religioso", que o meu Requiem é tão meigo como eu. O meu Requiem... já alguém disse que ele não exprime o susto da morte, já lhe chamaram canção de embalar a morte: é uma feliz libertação, aspiração à felicidade do além, mais do que doloroso trânsito. Gosto intrinsecamente dessa peça sem terrores nem temores, ameaças justiceiras ou fanfarras. Soa-me mais a acolhimento pela ternura de Deus do ser humano que regressa a casa do pai. E, afinal, é isso que Requiem quer dizer: descanso. Eis o que essa missa pede: dá-lhe, Senhor, o descanso eterno. E a esperança logo acrescenta: entre os esplendores da luz perpétua...

 

  Volto a escutar hoje o Requiem de Fauré, lembrando-me de frei Bernardo Domingues, irmão do frei Bento que acorreu ao Porto para o acompanhar à beira do mistério. E a tantos amigos, mulheres e homens, que lá vão partindo na secreta viagem, também lhes faço companhia com essa música toda feita de acenos evangélicos. Talvez não haja alegria maior do que a desse encontro com a misericórdia de Deus e dos humanos todos. Sinto-o muito nesta tarde de sexta feira, quando me chega a notícia de que o frei Bernardo morreu de madrugada.

 

   Melhor do que eu, diz Vladimir Jankélévitch num dos textos de L´Enchantement Musical: O Requiem de Fauré é como o amor e a morte. Depois de tudo o que já foi dito, que mais conseguiremos dizer? E, todavia, é facto: ouvimos os sublimes arpejos do Sanctus e os acentos patéticos do Libera me como se pela primeira vez os escutássemos. O mistério do Ofertório, o alegreto bergamasco do Agnus Dei, o azul seráfico do In Paradisum, todos temas inesgotáveis de meditação e exaltação. [O canto do Agnus Dei, na missa de Requiem, por três vezes pede o descanso para o morto: Agnus Dei qui tollis pecata mundi dona eis requiem. Repara, Princesa de mim, que Jankélévitch chama, a esse andamento em alegreto no Requiem de Gabriel Fauré, bergamasco, sublinhando assim a alegria dançante de uma música que lhe evoca a bergamasca, dança ligeira (como a tarantela) da região de Bérgamo.]

 

   Confidencio-te hoje, Princesa de mim, a minha experiência espiritual na escuta desta obra musical, porque ela me ajuda a uma contemplação evangélica do mistério da vida e da morte humanas. Até pela fraternidade em que esse mesmo mistério se torna presente, nesta irmandade de todos nós, os da mesma humana condição, aqui algures no inacabado (Quelque part dans l´inachevé, outro título de Jankélévitch). No momento em que encaro a morte de um amigo, estou de certo modo a interiorizá-la: há sempre um pouco de nós que morre com os amigos que partem, com qualquer humano que se morre, e há ainda essoutra parte de nós, que fica, bem viva pela força persistente que nos diz como há algo em nós, na comunhão de todos nós, que não irá morrer. Esta é doravante a comunicação mais forte que temos com os que já não vemos agora. Afinal, estamos sempre em comunhão com todos os que são - pela, e na, sua e nossa humanidade - o nosso próximo, confundidos na mesma condição, na vida e na morte. 

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em cartas passadas, falava-te de Vladimir Jankélévitch. Hoje, o meu amigo Marcello Duarte Mathias, chama-me a atenção para uma nota de pé de página (a 7, na pág. 362 do seu Caminhos e Destinos - A memória dos outros, tomo II), que reza assim: Numerosos intelectuais de confissão judaica sofreram idêntica dificuldade no seu relacionamento com a cultura germânica por virtude da perseguição aos judeus ocorrida durante o nazismo. Entre outros, é de citar o caso do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (1903-1985). Germanista de formação, autor de uma tese sobre Schelling, melómano erudito e apaixonado, deixou de estudar os grandes filósofos alemães a par dos músicos do universo germânico Mozart, Brahms, Beethoven, Schubert, excluindo uns e outros do seu universo cultural, por mera força de vontade. Caso deveras excecional esta espécie de exílio mental imposto a si próprio, que redunda num corte radical com o passado, abolindo-o de vez. (Se tanto nos é possível...)

 

   Este conceito de exílio mental é, desde logo, por si mesmo fascinante, e tal fascínio vai finalmente iluminando o notável texto de Marcello Mathias, recolhido na obra acima citada com o título O Escritor e o Sentimento de Exílio.Tema mordente, ali abordado sob a bênção inspiradora destes versos de Saint-John Perse: Ô toi hanté, comme la mer, de choses / lointaines et majeures  (...)  La nuit où tu navigues n´aura-t-elle point son île, son rivage? / Qui donc en toi toujours s´aliène et se renie?

 

   "A ti que, como o mar, és perseguido por coisas / longínquas e maiores (...) Quando te dará a noite em que navegas uma ilha, uma costa? Quem será que em ti sempre se aliena e se renega?"

 

   Alguém sabe? Frequentemente penso nos intelectuais judeus  -  russos, romenos, alemães, austríacos e não só  -  que, desde os pogrom  do tempo do tzarismo às perseguições nazis, se depararam com crises de identidade, sobretudo os que mais se tinham assimilado a outras culturas, desde o austríaco Hertzl, que se tornou pioneiro do sionismo, movimento para encontrar uma pátria aos judeus rejeitados pelas suas pátrias europeias (e, no início, tal pátria não seria necessariamente na Palestina, chegando mesmo a estudar-se a possibilidade de uma localização na África subsaariana). Aliás, Theodore Hertzl, abastado burguês vienense, começou por procurar ajudar os judeus expulsos da Rússia pelos progom, e teve a revelação do problema da sua própria identidade ao dar-se conta de que aqueles eram pouco, mal, ou reticente e ressentidamente acolhidos pelas nações da Europa Ocidental.

 

   Voltando aos anos loucos do século XX europeu, interroguemo-nos agora sobre os sentimentos - e o próprio sentimento de si - dos judeus, e dos intelectuais judeus, apanhados pela ascensão e o "triunfo" do nazismo. Casos diferentes uns dos outros, em todos eles me impressiona a variedade de respostas encontradas para enfrentar o ostracismo votado à muito sua identidade, quiçá mista judia e de uma nacionalidade europeia. De Hannah Arendt - que perdoou Heidegger, por muito ter amado, sem todavia fazer qualquer desconto ao desvario nazi - a Stefan Zweig, que afinal não conseguiu digerir a sofrida desconsideração da sua identidade vienense, austríaca ("habsburgamente" vivida!), germânica e europeia, e se suicidou no Brasil, em 1945.

 

   Samuel Jankélévitch, pai de Vladimir, era médico e foi tradutor de Hegel, Schelling e Freud. Seu filho, o judeu filósofo e musicólogo franco-russo, foi pelo pai assim criado no gosto e amor da cultura germânica. Não me parece que o seu posterior alheamento de músicos e filósofos germânicos assinale o desejo de apagar o passado, antes talvez o de afastar ou alhear de si qualquer sinal de pertença a uma cultura de se sentiu repudiado... Creio que procurará revestir-se de outra identidade, esta já ligada às suas raízes russas e ao seu abrigo e alimento francês, permitindo-lhe fugir à apagada e vil tristeza que matou Zweig. Talvez isso também lhe tenha permitido perdoar aos que lhe "furtaram" uma identidade sua (pensa, Princesa de mim, quanto tanto poderá magoar), sem todavia o impedir de, já em 1976, ainda declarar: J´ai pour Heidegger une profonde aversion, et je vis sans m´en occuper... Certo, e verificável, no plano musical, é que ele tampouco se debruçou muito sobre música italiana, ou americana, ou outra, ainda que com notórias exceções, como Liszt, Chopin, Bartok, Falla ou Albeniz, Mompou, Dvorak, Smetana e Janacek... Orientou-se para Fauré, Saint-Saens, Ravel e Debussy, Rimsky-Korsakov, Tchaikovsky  e Stravinsky, franceses e russos. Creio que tinha muito afecto por Fauré, como já te disse, certamente Debussy, Ravel sendo todavia aquele sobre o qual mais escreveu (ainda guardo o seu Ravel, publicado na coleção Solfèges, da Seuil, em 1956, mas cujo original data de 1939, editado pela Rieder, em Paris, logo dois anos após a morte do compositor. Jankélévitch talvez procurasse outro som interior (e digo interior também porque ele não era amigo de discos, preferia partições e o seu piano), mais próximo dessa parte de si que já não queria ser o que lhe tinham tirado. Mas sobre o que poderá ser um som alemão, e outras sensações, te falo já de seguida, recorrendo às confidências do grande maestro japonês Seiji Ozawa ao seu compatriota, escritor universal, Haruki Murakami. [Só por graça - porque nada tem que ver com o que te irei contar, os apelidos Ozawa e Murakami, literalmente traduzidos por este curioso lusitano, querem dizer, respetivamente: Grande Pântano e Acima da Aldeia, que, substituindo o significado topológico de Kami pelo espiritual, eu traduzia por Espíritos da Aldeia... Nos meus anos de Japão, há mais de duas décadas, os meus amigos divertiam-se muito com estas minhas "observações"].

 

   Em 2011, a editora Shinchosa (que, atendo-me ao som destes romaji ou caracteres latinos, que fazem transcrições fonéticas, seria tentado a traduzir por Nova Investigação) publicava em Tokyo um livro intitulado (e volto a recorrer à transcrição da escrita em kanji e hiragana para romaji) Ozawa Seiji-san to ongaku ni tsuite hanashi o suru, isto é, em jeito simples, o Senhor Ozawa Seiji e a música, em conversas registadas. A versão inglesa desta memória de conversas do Maestro japonês com Murakami Haruki foi editada em New York, pela Penguin Random House em 2016., com o título de Absolutely on Music: conversations with Seiji Ozawa. Desta foi traduzida a versão francesa, intitulada De la Musique: conversations, com indicação de autoria de Haruki Murakami e Seiji Ozawa.

 

   O livro tem vários motivos de interesse, desde o facto de reproduzir conversas muito eruditas de dois japoneses sobre música ocidental clássica (se bem que ambos confessem o seu amor ao jazz), até à revelação de pormenores significativos do árduo labor dos músicos profissionais, que nunca deixam, não podem deixar, de treinar o ouvido musical, as expressões de toques e de gestos de execução e direção musical, a concentração e abertura necessárias aos possíveis entendimentos de uma partitura. E vão surgindo várias comparações de artes e artistas, de inspirações e acústicas, de momentos e de estilos. Tudo isso se lê com muito gosto e enriquecimento humano, e nos introduz num universo onde as pessoas se encontram, se reúnem e comunicam, quiçá todas em busca do mesmo sopro, nem sempre em harmonia, mas com as suas próprias dissonâncias.

 

   Ozawa foi maestro assistente de Bernstein e de Karajan, bem diferentes um do outro. E foi, durante umas três décadas, diretor musical da Orquestra Sinfónica de Boston, à qual pretendeu "dar um som alemão"... Mas durante a sua permanência no cargo pôde verificar como o som da Boston Symphonic mudava conforme os maestros que a dirigiam (e houve muitos maestros convidados). Traduzo-te um trecho das "confissões" de Seiji Ozawa:

 

   Cerca de dois ou três anos após a minha chegada, o som da orquestra mudou para se orientar para o estilo alemão puro e concentrado a que chamo «into the strings». Os músicos regulam o seu arco [fala de instrumentos de cordas, claro, maioritários na orquestra] de modo a obterem um som mais pesado. Até aí, o som da Boston Symphony tinha sido sempre claro e fremente, isso porque a música francesa constituía o essencial do seu repertório. Munch e Pierre Monteux tinham exercido sobre ela uma influência profunda: Monteux já não era diretor musical, mas permanecia omnipresente. Quanto a Leinsdorf, ele tampouco tinha fosse o que fosse de alemão.

 

   Comenta Murakami: Chegara portanto a hora da orquestra mudar de som... E Ozawa acrescenta:

 

   Eu queria mesmo fazer música alemã. Queria interpretar Brahms e Beethoven, Bruckner e Mahler. Assim, pedi que se tocasse «into the strings». Depois de me ter resistido algum tempo, o primeiro violino, Joseph Silverstein, acabou por me apresentar a sua demissão. Também era o chefe assistente, e detestava aquele modo de tocar. Achava que diminuía o som. Levantou fortes objeções mas, no final de contas, o chefe era eu, e ele pouco mais podia fazer, além de renunciar.

 

   Pelo apelido se percebe que Silverstein era judeu, mas também Bernstein o era, o que não o impediu de brilhar em Beethoven, Brahms e Mahler, nem de transmitir a Seiji Ozawa grande gosto por esses compositores. Mais tarde Daniel Barenboim, judeu ecuménico, dirigirá um dos mais notáveis registos da tetralogia wagneriana... O maestro japonês que se nos confessa, quando Haruki Murakami lhe pergunta se, tendo dirigido a Orchestre National de France, não estará tão bem com a música francesa como com a alemã, contesta:

 

   Não é bem assim. Estudei com o maestro Karajan, e a minha prática da música é fundamentalmente alemã. Mas depois da minha chegada a Boston, apreciei muito Munch e assim toquei muita música francesa. Dirigi as integrais das obras orquestrais de Ravel e Debussy, cheguei mesmo a gravá-las. Descobri a música francesa depois de ter ido para Boston. O maestro Karajan nunca me tinha mandado trabalhar esse repertório - quiçá com exceção do Prélude à l´après midi d´un faune... E confidenciará ainda que, antes de Boston, apenas interpretara a Sinfonia Fantástica de Berlioz, cuja música não só é difícil, mas demencial, ao ponto de, por vezes, eu já não saber bem o que lá se passa! Mas talvez por isso ela se preste tão bem à direção de um chefe asiático. Posso fazer dela o que quiser. Certo dia, em Roma, há muito tempo, dirigi a ópera Benvenuto Cellini. Pois bem: deixei-me levar, entreguei-me a todos os meus desejos. O público adorou.

 

   O universo da música: tempo e lugar etéreo de reunião numa linguagem única da partilha. Espaço de liberdade comum.

 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na minha já idosa discoteca, constituída passo a passo, escuta a escuta, ao longo de muitas décadas, ainda se arrumam discos em vinil (78, 45 e 33 rotações) e inúmeros cd. Quando, com alguma nostálgica paciência, a percorro como catálogo dos meus gostos e preferências musicais, e caleidoscópio de tantas e tão diversas emoções, consigo sempre desenhar mais um traço, feição ou expressão, de um retrato meu que a vida, com as suas fidelidades, mutações e caprichos, foi animando. Assim me surpreendo a olhar para facetas menos lembradas da minha complexidade, tal como me repouso no encontro com o que talvez seja o meu pensarsentir estrutural, aquele corpo-e-alma que, de múltiplas maneiras, mais revelado ou mais escondido, se terá vestido para um novo encontro. Aparências ou manifestações que a circunstância de mim foi e vai desvendando e o meu pudor agasalhando em mistérios musicais que são a forma universal de segredar e entender o indizível. Por isso também guardo diversas interpretações das mesmas obras que, como te dizia em carta passada, são sempre, no tempo e no modo de cada momento, aquilo que foi composto e o que se escuta. Diz Jankélévitch que a música de Debussy nos fala da solidariedade simultaneamente impossível e necessária do ser e do não-ser...   ...numa linguagem que jamais alguém tinha falado, nem nunca mais alguém falará. Mas qualquer música, em diversas interpretações, é sempre nova. Adiante voltarei a citar-te um luminoso texto do melómano filósofo francês.

 

   Por mim, pois, prefiro dizer que, por muito clara que seja a sua partitura, qualquer momento musical é irrepetível: nasce de uma inspiração e da sua escrita, cuja tradição é depois traduzida por quem lhe dá o som da sua reanimação. Ganha outra vida própria, partilha que desabrocha em ofertas, como no milagre da multiplicação dos pães (que aliás, curiosamente, tão "filosoficamente" comoveu José Saramago) ou na conversão humana de Valjean (em Les Misérables de Victor Hugo, "comprada" pelo clérigo que o deixou fugir com a prata que lhe roubara).

 

   Em cartas futuras voltarei a todos estes temas. Mas nesta apenas quero levar-te a um cantinho da minha discoteca, onde com alguma frequência me acontece conviver com música inglesa dos séculos XVI e XVII: Dowland, Purcell, Byrd, e tantos outros. Esta manhã, já radiosa e ainda fria, repetidamente escutei If music be the food of love, título e primeiro verso duma ária para voz solo e contínuo, de Purcell. Canta a soprano Catherine Bott, no registo editado pela Chandos. O poema é de Henry Heveningham, apolónio a alumiar uma sensualidade sufocada por condição cortesã, exaltando prazeres que nos invadam olhos e ouvidos e tenham transportes tão violentos que magoem... e a própria veemência da música paradoxalmente vem enaltecer um secreto erótico desejo: Certo é que morrerei pelos vossos encantos, a menos que os vossos braços me salvem...

 

   Aquele primeiro verso, que dá título, Se a música é o alimento do amor..., esse, e só esse, é de Shakespeare. Ao escrever discorrendo esta carta, ocorreu-me que a música, nesse verso, talvez seja alimento do amor pelo poder de confundir desejos apenas dizíveis pelo inefável, na expressão livre e sem alvo de um só Desejo. Certos místicos, com os quais não me identifico nem achego (não sou cantante judeu, inda que bíblico, como Salomão, nem alumbrado espanhol, como Teresa d´Ávila), vivem e testemunham, ou imaginam, transes em que desejos se confundem.  Como noutro soneto de Shakespeare (CXXXV, na edição da Cambridge University Press, 1966), que agora mesmo para ti traduzo:

 

Whoever hath her wish, thou hast thy will,  
And ´Will´ to boot , and ´Will´ in over plus,  
More than enough and I that vex thee still, 
To thy sweet will making addition thus. 


Wilt thou whose will is large and spacious, 
Not once vouchsafe to hide my will in thine?  
Shall will in others seem right gracious,  
And in my will no fair acceptance shine?   

 

The sea all water yet receives rain still,  
And in abundance addeth to his store
So thou be rich in will add to thy will     

 

One will of mine to make thy large will more
Let no unkind, no fair beseechers kill,
Think all but one, and me in that one ´Will´.


Uma qualquer faz votos, tu só desejo tens,
E Desejo de sobra, Desejo para esbanjar.
E mesmo sofrendo mais dos teus desdéns
Ao teu terno desejo me quero somar.

 

 Não irás tu, cujo desejo é vasto e espaçoso,
Deixar que o meu no teu se abrigue?
Se doutros o desejo tens por gracioso,
Porque lanças sobre o meu sombra que o castigue?

 

Se o mar que é todo água acolhe chuva ainda
P´ra que em abundância a si a acrescente,
Tu, tão rica de desejo, o teu desejo alinda

 

E acresce com um só desejo de mim...
Não deixes que o teu  desprezo nos ausente,
Deixa só que o meu seja teu  desejo enfim...

 

         

   Esta tradução não é nem literal nem literária. Foi momentânea, talvez fácil, certamente conveniente. Também teve opções: como a de traduzir wish - que quer dizer desejo, aspiração, mas também voto como desejo de bem - por este voto; e Will que significa vontade, capacidade de decisão (até um testamento se chama will), por Desejo, no sentido de vontade condicionada por outra, isto é, não coerciva. Para exprimir-te dois sentidos: 1- o de que o desejo humano só verdadeiramente o é se partilhado, pois que, não o sendo, ou será suspiro contínuo, ou ira e violência ; 2- e o de que só a música - que é linguagem que nada afirma nem representa - pode em boa verdade (que, como o pensarsentir, é sempre uma vitória sobre a tentação do dogma) pôr-nos na onda inefável do indizível, caminho para a realidade invisível que, diz-me o sentimento de mim, do amor humano e do desejo de Deus, é afinal, ela só, a verdade ontológica, sem formulações tentativas. Pode assim ser outro modo do misticismo. 

 

   Quiçá o que, afinal, Princesa de mim, eu hoje te quero dizer antes seja bem dito pelo grande Shakespeare, nestes versos de The Passionate Pilgrim:

 

    If music and sweet poetry agree,
    As they must needs, the sister and the brother, 
    Then must the love be great ´
twixt thee and me,
 
    Because thou lov´st the one, and I the other,
 
    Dowland to thee is dear, whose heavenly touch
   
    Upon the lute doth ravish human sense;
  
    Spenser to me, whose deep conceit is such
 
    As, passing all conceit, needs no defence.

 

   Gosto muito dessa referência a Dowland, tocador de alaúde e compositor, e a Edmund Spenser, poeta, ambos admirados por Shakespeare. Não te traduzo o poema, apenas recordo, por essencial ao tema de que te falo, que ´twixt é a abreviatura de betwixt, palavra de origem saxónica, já arcaísmo poético ao tempo de Shakespeare, para significar between. Assim, o verso em que surge diz, em português: deve então ser grande o amor entre ti e mim / porque tu amas um e eu o outro... Partindo da condição de que se a música e a doce poesia concordam, / como, necessariamente (as they must needs), irmão e irmã, / deve então ser grande o amor entre ti e mim, porque amas um e eu o outro (mais do que a ideia de troca está aqui a de completação, a comunhão pela diferença): o poeta traz a inspiração de Spenser, mais fecunda que outra qualquer, a sua amada traz Dowland, cujo divinal toque de alaúde rapta os humanos sentidos.

 

   Do amor erótico a qualquer mística, o desejo que se despoja e vive livre transforma-se de impulso a possuir em busca de comunhão. Para tanto, precisa sempre de parceiro. Tal como o Evangelho também não distingue o amor de Deus do amor ao próximo. Mas termino traduzindo o prometido trecho de La musique et l´ineffable de Vladimir Jankélévitch. Por ele começa o capítulo 3 (Le charme et l´alibi) do livro. Com o subtítulo de L´opération poétique:

 

   A obra de encantamento que é o espressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético. Faz música, ordena o sonho a Sócrates, e não pares de operar. Fazer é de uma ordem totalmente diferente de dizer. Compor música, tocá-la interpretando-a, cantá-la ou mesmo escutá-la recriando-a não serão, afinal, três modos de operar, três atitudes bem mais drásticas do que gnósticas? O criador, o executante que é recriador ativo, o ouvinte que é recriador fictício, todos três participam numa espécie de operação mágica: o executante coopera com o primeiro operador fazendo com que a obra exista efetivamente no ar vibrante durante um certo lapso de tempo, e o ouvinte recriador terciário coopera pela imaginação ou por gestos adventícios...

 

   Nota, Princesa de mim, que a frase A obra de encantamento que é o expressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético se inspira também na Poética musical de Igor Stravinsky. E não será isso ainda o que Shakespeare sugere ao juntar a evocação de Dowland à de Spenser?

 

Camilo Maria           

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   «O não-sei-quê é para o intelectualismo um tema inesgotável de inquietude e perplexidade: cultiva em nós essa espécie de desconforto intelectual e de má consciência, esse mal-estar nascido da incompletude que Platão designava por aporia e que, à sua maneira, é bem um mal de amor, uma nostalgia erótica, uma insuficiência amorosa. Esse «desejo de coisas inexistentes», pelo qual Gabriel Fauré caracteriza a divina frase do adagio do seu segundo quarteto, não será ele também o segredo do não-sei-quê e do encanto quase doloroso que ele por vezes segrega?

 

   Este trecho da apresentação, pelo próprio autor, do livro La manière et l´occasion, primeiro volume da obra Le Je-ne-sais-quoi et le Presque-rien, publicada pelas Éditions du Seuil (Paris,1980), diz-me pessoalmente muito, não só sobre o espírito que animou toda a escrita do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (judeu de origem russa), como sobre a inspiração que ela foi para mim, desde 1957, quando descobri esta obra, então editada pelas PUF (Presses Universitaires de France) num só volume. A edição presente (1980) alarga-se por três volumes, correspondendo o primeiro e o terceiro a textos da primeira edição (1957), ainda que profundamente revistos, e sendo o segundo um texto totalmente inédito. Os títulos dos outros dois volumes da trilogia atual são La Méconnaissance, le Malentendu La Volonté de Vouloir.

 

   Lembro-te ainda, Princesa de mim, dessa coincidência no gosto pela música de Gabriel Fauré, sobretudo a de câmara, de que Jankélévitch recorda o adagio do segundo quarteto, mas também, no meu caso, pelo amor à sua missa de requiem, de que te falei em carta quase recente. Se releres algumas das minhas cartas, verás bem como a noção de imperfeição (como algo inacabado, incompleto) é recorrente no meu discorrer, é sempre a perspetiva por que olho para a nossa própria condição humana, sem nunca pretender adivinhar-lhe o tempo e o modo de adventícia perfeição, mas amando-a sem cessar, na esperança do não-sei-quê, apesar de sermos um quase-nada. Eis o meu "mal de amor, nostalgia erótica, insuficiência amorosa, desejo de coisas inexistentes"... E é nessa contemplação do não-sei-quê pelo eu-quase-nada, que todos os dias renasço feito fé, a fé cuja substância é o tudo do algo que há de vir. Não sei quanto da "minha filosofia" foi influenciado ou será coincidente com o pensamento filosófico de Jankélévitch, mas neste encontro uma inspiração que me anima a pensar, quiçá em busca daquele algures no inacabado que dá título à coletânea de conversas de Vladimir com Beatrice Berlowitz:

 

Quelque part dans l´inachevé (Gallimard, Paris, 1978). O inacabado, para mim, disse-te eu, abre-se sobre o algo que há de vir. Mas antes, por seu lado, o filósofo francês escreveu:

 

   É verdade que esse algo é a unidade da natureza primitiva, a qual é coisa assinalável e, em suma, dizível: mas o facto de ser objeto de uma reminiscência pré-natal e dum voto meta-empírico maiores do que qualquer desejo sensível obriga Aristófanes a expô-lo metafisicamente e a dar-lhe um carácter tão inexplicável quanto inesgotável. Sem esse misterioso e sobrenatural Allo ti, a aporia de amor descrita em Fedra seria, ela também, uma evasiva? Tendo enumerado à maneira de Aristóteles as características da beleza poética, o jesuíta Rapin escreve: «Ainda há na poesia certas coisas inefáveis que não podemos explicar. Tais coisas são como que os mistérios dela.»

 

...   ...Esse «ainda» poético, tal como o algo erótico do discurso de Aristófanes, é uma alusão ao infinito e uma abertura ao indizível; esse "resíduo" de mistério é a única coisa que vale a pena, a única que importaria conhecer e que, como se propositadamente, permanece irreconhecível. O segredo, tal como diríamos da morte, está decididamente bem guardado, a ignorância humana foi decididamente bem combinada! Muitos nomes puderam ter sido dados a esse inominado inominável, muitas definições propostas para esse «algo outro» que não é precisamente como os outros porque em geral não é nenhuma coisa, nem coisa alguma.

 

   Tenho feito, vezes sem conta, uma experiência sensível, uma contemplação sensorial, de tal mistério secreto - se assim, Princesa de mim, lhe quiseres chamar. Atalhando, dir-te-ei que o monumento português que mais amorosamente visito é aquele céu aberto pelo inacabamento das capelas imperfeitas, no Convento de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha. É magnífica aquela estrutura de humana arquitetura, edificada para se fechar no topo e todavia incompleta, tão comovente testemunha, já meio milenar, da nossa imperfeição, por esforçada que esta seja... Como seria a nossa humanidade se todos nós aprendêssemos a reconhecer e amar com gratidão e alegria fraterna esta nossa imperfeita condição? Não te falo de resignação mas, antes e só, de consciência da nossa realidade presente, que também aspira à ascensão pelo espaço aberto da nossa liberdade. O nosso ser humano, imperfeito sim, mas em aberto, porque livre, não o vejo, não o pensossinto como vítima castigada de um pecado original, nem tampouco, nihilisticamente, como acaso sem porvir, destituído de qualquer sentido. Cada um de nós sabe que morrerá, mas não sabe quando. Nem sequer sabe o que é verdadeiramente a morte, para além do biologicamente verificável e juridicamente determinável. E, como discorre Jankélévitch num texto esclarecidamente intitulado Mors certa, hora incerta, tal ignorância cronológica basta para tornar lacunar o nosso conhecimento do que a morte realmente é:

 

   O conhecimento cronológico, dizíamos nós, implica, a fortiori, o conhecimento «ontológico». Ou, se tal linguagem me for permitida, é a «quandoïdade» que implica a «quodidade», e não inversamente! [Ou seja: só se sabe quando, quando se sabe o quê].

 

   E não será por tal razão que a data da nossa própria morte nos é sempre subtraída? Mors certa, hora incerta! Platão conta como Zeus, tendo retirado aos homens o dom da imortalidade, mas desejando todavia tornar-lhes mais suportável o castigo, decidiu que eles morreriam mas não teriam a presciência do dia nem da hora: foi-lhes assim poupado o suplício contranatura do condenado à morte. O homem sabe que morrerá, mas não sabe quando; e quem não sabe quando nem sequer sabe o quê, apenas sabe o facto na intensidade e urgência dramática; não sente a angústia crescer; ou, melhor, só «sabe que», mas por ciência geral e, de certo modo, silogística. Tudo se passa como se o destino nos subtraísse a data da morte para nos desviar do aprofundamento da sua natureza. 

 

   A partir duma certa idade, mais ditada pela condição própria do que propriamente pela nossa contagem cronológica, a morte surge-nos - mais do que como certeza preanunciada mas sem rosto nem data conhecida - como uma lembrança, uma antecipada recordação de nós, que entretanto já nos habituamos a evocar os nossos próximos que vão partindo. E só sabemos que o-não-sei-quê que nos espera em quando ignorado terá nesse momento uma resposta nossa, não instantânea mas longamente conservada no percurso desta vida que deixamos. Será um sim sincero e só nosso, tão inato como aquele que, ao nascermos, o nosso primeiro choro disse à vida. Porque, tal como ao princípio queríamos ver e depois querer, também agora ousaremos aquilo para que não sabíamos estar tão bem preparados. Talvez por não nos termos reconhecido nesse quase-nada (le Presque rien). Para ilustração do que te escrevo, Princesa de mim, vou buscar uma imagem de Vladimir Jankélévitch, escrita num contexto muito diferente, pela ocasião e pelo propósito, do deste final de carta minha:

 

   O pássaro não é um doutor em ciências que possa explicar aos seus confrades o segredo do voo. Enquanto vamos discutindo sobre o seu caso, a andorinha, sem mais explicações, levanta voo perante os espantados doutores... E, assim também, não há vontade sábia que possa explicar à Academia o mecanismo da decisão: mas em menos tempo do que o necessário para dizer o monossílabo Fiat, o pássaro Vontade já cumpriu o perigoso salto, o passo aventureiro, o voo heroico do querer; a vontade, deixando o firme apoio do ser, já se lançou no vácuo. 

 

   Há momentos em que, estranha e entranhadamente, sentimos confiança, afinal, no tudo desconhecido da nossa condição.

 

Camilo Maria

      
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Estou de volta àquela página de diário que escrevi em Scarsdale, num fim de serão, há trinta e três anos atrás. Na minha última carta, deixara-te esse meu texto no fim de uma citação de São Tomás de Aquino que dizia: Por isso falamos de amor íntimo e das entranhas da caridade... Logo adiante acrescentei: «E lembramos Camões: Transforma-se o amador na coisa amada / por virtude do muito maginar; / não tenho logo mais que desejar / pois em mim tenho a parte desejada. // Se nela está minha alma transformada, / que mais deseja o corpo de alcançar? / Em si somente pode descansar / pois consigo tal alma está liada. Lembrei-me de procurar estas reminiscências na desvairada biblioteca que trago comigo, depois de ter aberto ao acaso um dos volumes do Le je-ne-sais-quoi et le Presque rien do Vladimir Jankélévitch:

 

   Mais Platon pense que l´amour n´est ni ce vieillard vénérable, ni ce jouvenceau ridicule; à vrai dire, Diotime, porte-parole de Platon [no "Banquete", e continuo com Jankélévitch, mas traduzindo-o], descreve-nos um Amor mais próximo dos jovens do que dos velhos, posto que o Amor, segundo ela, está, vez a vez, em plena flor e moribundo e de novo renascente; infatigável caçador, eterno aprendiz, incorrigível noctâmbulo - eis o Amor! Em resumo, foi Pascal quem com maior clareza formulou o paradoxo do Amor: "O amor não tem idade, está sempre a nascer..." Por isso os poetas no-lo representam como uma criança. O amor é simultaneamente criação e reprodução; é totalmente aurora radiosa de uma nova era e herdeiro duma continuidade biológica, duma tradição imemorável. Quantas incontáveis vezes não terá sido repetida a palavra do amor, desde que o mundo é mundo? E sempre nos mesmos termos! E todavia o novel enamorado que hoje declara o seu novo amor improvisa essa palavra como se fosse o primeiro namorado desde a origem dos tempos, como se ninguém, antes dele, jamais tivesse pronunciado a palavra do amor, como se pela a primeira vez na história do mundo um homem dissesse o seu amor a uma mulher ; os próprios gestos do amor, gestos cuja iniciativa se perde na longínqua noite dos primórdios, dir-se-ia que o novel enamorado os reinventa a par e passo: porque cada homem, nesses momentos, é um inspirado e um inventor de génio. Tornando insensível a eterna repetição, o encanto sempre renovado arrasta o namorado no seu incansável impulso; cada manhã é para ele a primeira manhã do mundo.

 

   E, nesta catalisação de memórias e raízes que me provocou a conversa ao jantar (que andou muito à volta da demanda do reconhecimento ou angústia do irreconhecimento em Camus), recordo um texto de Diniz, teólogo antigo, no seu Tratado dos nomes divinos: O Amor é ele mesmo causa de tudo. Pelo excesso da sua bondade ele ama tudo. Faz tudo. Contém tudo. Realiza e leva tudo à plenitude. Ele é, Eros divino, bom, a própria Bondade, a Bondade emanente pela Bondade. Na verdade, Amor benfeitor dos seres, substituindo-se ele mesmo no Bem, infinitamente, não quis que o Bem permanecesse estéril, e levou-o a operar segundo a infinita eficácia da sua virtude.

 

   Depois da conversa sobre Camus e Sartre, etc., lembrei-me de ir a uma dessas estantes em que o Livro Sexto da Sophia está ao lado de títulos como Business Economics e o Ricardo Reis ombreia com o Código Comercial -  à caça de A Capital do Eça que, por acaso, se encostava ao Romancero Gitano e aos Veinte Poemas de Amor (Llorca de um lado, Neruda do outro). Porquê? Porque me lembrei de que Artur Corvelo é pretexto para descrever a superficialidade, a projeção desenraizada, a dificuldade ou impossibilidade de comunicar. E quis que a "minha" criançada me ouvisse ler, naquele português queirosiano, as fantasias, as peneiras, as deceções, as vergonhas, os melindres, os desgostos e as agressividades contidas, ou não, de um jovem provinciano incomunicado num salão (afinal provinciano também) de Lisboa.

 

   Tudo, esconso, está no olhar interior que nos criamos e nos faz nascer. Diz uma canção de Coimbra: És linda, se foras feia / mesmo assim eu te queria... / Não é por ser lua cheia / que a lua mais alumia... E posso dizer precisamente o mesmo, assim:

És feia, se foras linda / mesmo assim eu te queria... Mais luminosa brilharia então essa virtude criadora que se chama ternura. O amor não tem idade nem gosto, é um sopro de Deus.»

 

   Mais de três décadas depois, a minha biblioteca está muito maior e, com a instalação definitiva em Portugal, vou-lhe dando outra arrumação... que, aliás, inclui a doação de muitos, muitos livros. A pouco e pouco, com tempo até para ir tecendo novos panoramas de leituras idas e lembranças, de relações sem idade. Às vezes, um livro que agarro para lhe achar o lugar em estante retém-me, para que o vá ligar ao que me vai no peito ou na cabeça. Assim me encontrei hoje nas Maximes et Réflexions de François VI de La Rochefoucauld. Deixo-te, para fecho desta carta, as sentenças ou máximas morais fixadas no texto de 1678, com os números 68 a 76, que traduzo: É difícil definir o amor. O que se pode dizer é que, na alma, é uma paixão de reinar; nos espíritos, é uma simpatia, e no corpo mais não é do que um desejo escondido e delicado de possuir o que se ama depois de muitos mistérios... ... Se há amor puro e isento de mescla com as nossas outras paixões, é o tal que se esconde no fundo do coração e nós próprios ignoramos...   ... Não há disfarce algum que por muito tempo possa esconder o amor que aí esteja, nem fingi-lo onde ele não está...   ... Não há pessoas que não se envergonhem de se terem amado, quando já não se amam...   ... Se julgarmos o amor pela maioria dos seus efeitos, parece-se mais com o ódio do que com a amizade...   ... Podemos encontrar mulheres que nunca tiveram galanteria, mas é raro encontrar alguma que apenas tivesse tido só uma...   ... Há só uma espécie de amor, mas dele existem mil diferentes cópias...   ... O amor, tal como o fogo, não pode subsistir sem um movimento contínuo, e deixará de viver logo que deixe de esperar ou de temer.

 

 

   Das considerações de La Rochefoucauld posso concluir que o amor é uma potência ativa, só como ato existe, mas cuja essência ainda ignoramos, pois quanto muito apenas sabemos que se esconde no fundo do nosso coração. E é bem certo que muitas vezes com amor se confundem paixões de domínio e de posse... o que não significa que essas, ainda se contraditórias do bem querer, sejam totalmente estranhas ao impulso nativo do desejo de amar. Por isso, em carta anterior, eu te dizia que o amor se destila no silêncio do coração, no despojamento interior de cada si. Amores há muitos e diversos, todos eles devem ser filtrados por esse exercício ascético da procura do encontro do Amor. Como escreveu São João: para que seja completa a nossa alegria. 

 

Camilo Maria

     
Camilo Martins de Oliveira