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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

 

Britishness, The Scottish Question and, a black wolf, 27-22 March 2017

 

RH Theresa May atravessa o Hadrian Wall. As tropas do SNP perfilam-se no topo das montanhas.

Está a 72 horas de acionar o Article 50 que abre à saída do UK da European Union. Há dias atrás fala a um reino unido após ataque jihadista às Houses of Parliament. Bastam 82 segundos para semear a morte dos agnelos e a perplexidade face ao mal. —  Chérie. L'intention fait l'action. Os líderes religiosos rezam a um só céu pelos caídos: PC Keith Palmer, Mr Kurt Cochran, Mrs Aysha Frade e Mr Leslie Rhodes. Um português sobrevive ao atentado com ferimentos ligeiros. — Hmm. Where God builds a church, the devil will make a chapel. Northern Ireland vive problemática formação do governo sob encruzilhada constitucional: o consenso DUP-Sinn Féin, a terceira eleição num ano ou a London rule. Já a EU comemora os 60 anos do Treaty of Rome, Capitol Hill declina o Obamacare Repeal do Presidente DJ Trump e Madame Le Pen visita o Kremlin. O Prince George of Cambridge prepara-se para frequentar a Thomas's Battersea School em London. O Ukip perde o seu único MP, com o abandono do partido de RH Douglas Carswell MP sem ida a votos.


Sunny break after the terrible dark clouds at Central London
. O pandemónio vem e vai,  inopinado, deixando um rasto de devastação cujos efeitos silentes ainda germinam. Hoje são as barreiras de segurança erguidas até ao  Windsor Castle. Ontem foi a assombração. Os corpos, o sangue, os disparos, o pânico, os polícias e o selar do perímetro, a reação armada, carros e helicópteros, ambulâncias, angélicos paramédicos no auxílio às vítimas e ao vilão, os heróis acidentais. Destacam-se RHs Tobias Ellwood e Ben Wallace MPs, reconhecidos, celebrados e entrados no Her Majesty’s Most Honourable Privy Council. O ataque terrorista de 22 March no coração de Westminster é  uma voragem do mal e do bem. O black wolf logo é abatido, mas sobejam intermináveis horas de um misto de perturbação nas almas ao olhar o abismo. A expressão da Right Honourable Theresa May tudo compõe, porém, na insigne House of Commons:


“Mr Speaker, yesterday an act of terrorism tried to silence our democracy. But today we meet as normal.” E é a urbana normalidade que abate o fantasma jihadista. O assalto falha tão redondamente que de novo sobrevém desconcerto. Com uniformes a esquadrinhar o país de lés-a-lés em lide da ameaça severa, eis eurófila manifestação de amor na mesmíssima praça onde o demónio, por momentos, andou à solta. A insólita tela diz também algo dos labirintos humanos. Nos portões do palácio, olhando as estátuas dos santos locais, mora uma rosa branca.

Dos valores comuns da Britishness, ”the values we share in our family of nations,” fala Mrs May quando hoje ruma às Highlands. A visita antecede a notificação oficial a Brussels da retirada do euroclube e materializa sensível etapa diplomática para concertar posições entre os quatro povos do reino. Se no plano europeu há que aguardar pelas 12H30 de 29 March 2017, hora e dia apontados para a entrega de carta primoministerial ao EC President Donald Tusk, em simultâneo com a presença da PM nos Commons para informar o país e responder aos MPs pelo ato, na frente interna acaba o 10 de obter imprevista trégua. Por acaso do destino, os trágicos acontecimentos em London congelam o voto do segundo referendo à independência em Holyrood. O compasso de tempo não durará, todavia. Os ecos do encontro com a First Minister Nicola Sturgeon pouco revelam, nomeadamente quanto a devolução dos poderes a repatriar, além de um esfíngico sorriso das duas ladies na foto de família. Em público, discursando no UK’s Department for International Development em East Kilbride, deixa a English Tory mensagem para Scots ouvirem: "[T]his is not – in any sense – the moment that Britain steps back from the world. Indeed, we are going to take this opportunity to forge a more Global Britain. The closest friend and ally with Europe, but also a country that looks beyond Europe to build relationships with old friends and new allies alike. (…) So as Britain leaves the European Union, and we forge a new role for ourselves in the world, the strength and stability of our Union will become even more important "

 

Em momentos pela maioria classificados com um modern hino à Union Jack e aos “shared values of freedom of speech, democracy, respect for human rights, the rule of law,” soberana nota final. Às mãos dos Brits chega a high-tech £1 coin, cunhada pelo Royal Mint em Llantrisant (South Wales) com o quinto perfil de HM The Queen.


A nova libra esterlina apresenta-se inovadora, diferente, com bordo de 12 ângulos, dourada e prateada, mais leve, fina e larga que a good old pound. Às características do design único soma especial minúcia ótica de defesa contra falsários. — Well. After an appalling week, even surrounded by gold and silver, bear in mind that thing of darkness that Master Will talks in The Tempest by the voice of Ariel: — Not a soul / But felt a fever of the mad and played / Some tricks of desperation. All but mariners / Plunged in the foaming brine and quit the vessel, / Then all afire with me. The king’s son, Ferdinand, / With hair up-staring—then, like reeds, not hair / — Was the first man that leaped, cried, “Hell is empty / And all the devils are here."

 

St James, 27th March 2017

Very sincerely yours,

V.

LONDON LETTERS

 

 

The 6th Duke of Westminster, 1951-2016

 

O senhor gosta de a good military joke, ama o azul oceano e estima a música dos Fleetwood Mac pela wonderful solitude que lhe sugerem em Albatross. Mais do que a fotografia unidimensional do homem rico,

no caso: um multibilionário dono de metade das terras em London ou em Oxford, nos anais fica sobretudo como um dos curadores restantes da green and pleasant land. His Grace The 6th Duke of Westminster, Gerald Cavendish Grosvenor, KG, CB, OBE, TD, CD, DL, parte aos 64 anos em dia elisino na palatina Lancashire. — Chérie! L'envie s'attache à la gloire! Avaliada em +£9bn, a fortuna ducal passa para o filho mais novo Hugh Richard Louis em detrimento das irmãs. The Earl Grosvenor beneficia do medievo princípio da primogenitura que já nem ao trono se aplica. — Eek! Things sometimes change less than we think. O reino revela novas tendências, porém, quando as praias mediterrânicas criam a moda de banir o burkini e a corrida eleitoral à White House apavora com a notícia do NY Times sobre ligações financeiras entre a campanha de Mr Donald Trump e o Kremlin. A Church of England adere ao digital, com página oficial no Facebook e a partilha de eight apps for vicars. Também a University of Sheffield (Eng) inova no marketing educativo, propondo aos melhores estudantes que tirem a licenciatura e ganhem o mestrado grátis em South Yorkshire. Em Manchester, a English Fine Cottons revisita o engenho vitoriano, investe £5,8m na restauração de a 1853 cotton mill e exporta a preço justo lã humanamente manufaturada para Germany e Italy. Nos Rio 2016 Olympics Games é a glória para o Team GB.

 

 

Quiet brizzy at the South coastal cliffs. London anima em vésperas do lançamento do Night Tube, com as linhas centrais a circular durante as 24 horas, mais 2,000 postos permanentes de trabalho e previsto impulso de £360m na economia. O serviço facilita o quotidiano, em especial da avalanche que nestes serões ruma a West End para visionar em palco Harry Potter and The Cursed Child. Os bilhetes da peça atingem já as £8,300 no mercado negro, 60 vezes o valor oficial! Em contraponto, o Labour Party continua em queda cabalística. A três tempos, até. A ala de RH Jeremy Corbyn perde no High Court o direito a votar dos novos 350,000 militantes atraídos desde a sua eleição, há 11 meses; o rival RH Owen Smith diz contrariar alegados secretos planos governamentais para privatizar o NHS, de todos desconhecidos; e o poderoso Deputy Leader RH Tom Watson inflama o debate interno com denúncia de subversivo trotskyst entrysm nas fileiras. Para Summertime saga, convenha-se que o Lab script não vai mal. Mas também a campanha dos Ukippers se agita com ventilado regresso à liderança de RH Nigel Farage. O MEP tem novo visual, com vistoso bigode a guardar o habitual verbo incisivo. Admite tal hipótese, sim, em cenário de Downing Street incumprir nas negociações europeias. Embora distante de assumida intervenção para pôr ordem em desarranjada casa, o senhor é por muitos seriamente tomado como Comeback Kid. Afinal, três vezes se demite ‒ em 2009, 2015 e 2016 ‒ para logo depois reatar o leme nacionalista. Já a Prime Minister RH Theresa May está de férias, nos (non-EU) Swiss Alps e ignorando aludida turf war entre os HM Government Brexitters. Para continental ver, running the country, deixa o Foreign Secretary RH Boris Johnson aos comandos de Whitehall.

 

Os dias no reino são ainda dominados pela partida para a eternidade de um dos seus mais distintos aristocratas, o prodigiosamente rico terratenente de Chester (Engl) e Sixth Duke of Westminster. O desaparecimento de HG Gerald Cavendish Grosvenor recoloca discretas questões acerca da imobilidade social da upper class em Britain e da sua teologal rule by the best assistida pela iron law of inheritance. No caso, a linhagem recua à era do primeiro rei normando e rezam as crónicas que um dia questionado sobre qual a qualidade do empreendedor contemporâneo o lorde dá épica resposta: possuir ancestrais amigos de William The Conqueror (1028-87). A réplica é tão mais spicy quanto o brasão ducal com as rosas de York e Lancaster inscreve o mote Virtus Non Stemma! Recatado por ofício, pontua em eventos da Royal Family e atividades filantrópicas do North West. Dele sabia ser proprietário de paradisíacos nacos da Atlantis e do londrino Grosvenor Crescent - aquele que, com estátua do 1st Marquess of Westminster, Robert Grosvenor (1767-845), usualmente pontua em filmes de época do tipo Upstairs, Downstairs e nas séries envolvendo o Bloomsbury Set ou o Monsieur Hercule Poirot saído da pena de Dame Agatha Christie. Se das imagens ao longo dos anos fixo largo sorriso, que assemelho ao Cheshire Cat próprio da região onde ergue o seu majestoso Eaton Hall e que Mr Lewis Carrol faz surgir e sumir nas Alice's Adventures in Wonderland, das parcas palavras recordo um relutante lorde face a bem entendida sociedade banhada pela capitulação à humana invídia. Notórios são os laços à House of Windsor. O herdeiro Hugh é padrinho do Prince George e a mãe The Dowager Duchess é madrinha de William of Cambridge, tal qual a ida Princess Diana of Wales amadrinha a irmã Lady Edwina e seu testamentário é o falecido Duke enquanto o Prince Charles of Wales apadrinha o inicial Earl Grosvenor e ora Seventh Duke of Westminster.

 

Gerald Cavendish Grosvenor nasce na Northern Ireland e usa referir a idílica infância havida nas ilhas de Lough Erne (County Fermanagh). Recebe educação convencional para liderar, longe do lar e com trânsito por Sunningdale, Harrow e Sandhurst, recolhendo tarde o grau honorário de Doctor in Laws pela Keele University (Staffordshire). Militar chegado à patente de Major General no Queen's Own Yeomanry, nos dias do fim planeia ainda transformar o setecentista Stanford Hall num centro de reabilitação para as tropas. Arrecada sucessivamente os direitos e responsabilidades de Commander da Order of St John, Knight da Order of St John, Officer da Order of the British Empire, Knight da Order of the Garter, Companion da Order of The Bath e Commander da Royal Victorian Order É Grand Prior da Military and Hospitaller Order of St Lazarus of Jerusalem. Alia a vida castrense com os negócios familiares, o Grosvenor Estate onde é trustee e o Tory Party. Filho de político e criado como rural Esquire, só aos 15 anos se acha herdeiro da fortuna planetária. Casa com Lady Natalia Ayesha Phillips, descendente de militar e do poeta Alexander Pushkin, com quem gera Tamara, Edwina, Viola e Hugh. Demora a reencontrar-se e é assombrado pelo black dog de Sir Winston. Ainda assim, todos lhe apontam alto sense of duty. O império cresce enquanto cuida de posh areas como Oxford Street, Mayfair, Pimlico e Belgravia, adjacentes ao Buckingham Palace, além das extensas propriedades em Scotland e mesmo Castilla La Mancha. Abandona o Conservative Party, em 1993, por objeção de consciência à Bill on Leasehold Reform. Prossegue na curadoria e acentua a filantropia nos burgos e nos campos. Lega boa memoração. Para doce insight na vida deste charming country gentleman, há agora o Grosvenor Museum e os BBC Archives. A voz do Duke surge em edição dos Desert Island Discs (1995), com as suas beloved pieces of music já com a essencial passagem por “The Hebrew Slaves Chorus” na Nabucco de Signori Giuseppe Verdi. ― Farewell, His Grace.

 

 

Dalém Atlantic quase se ouvem os timbres de Vangelis em Chariots of Fire trazidos pelo vento. Swiming, rowing, cycling, running, jumping, sailing or riding, é a corrida ao ouro pelo Team GB. Os atletas britânicos somam 38 medalhas no fecho do first weekend no Rio. O triunfo nas provas é por cá sublinhado com as histórias individuais da fantástica jovem geração inspirada pelos 2012 London Olympics, solidamente escoltadas pela confirmação de tesouros nacionais como Mr Andy Murray no ténis de terra batida ou Mrs Katherine Grainger, a 40-year-old university chancellor, nas regatas de lagoa. A representação está de parabéns no todo, mesmo quando não sobe ao pódio. Compete na inteireza do citius, altius, fortius outrora sonhados pelo Baron Pierre de Coubertin para a disciplina nos desportos humanos. — Well! It should be noted those wise words of the worldly transience in The History of Henry VI by Master Will: Glory is like a circle in the water, / Which never ceaseth to enlarge itself, / Till by broad spreading it disperses to naught.

 

 

St James, 15th August 2016
Very sincerely yours,
V.