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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 18 a 24 de setembro de 2023


Autor de “Revelação e experiência do Espírito” (Paulinas), Yves Congar foi um dos grandes teólogos do século XX. Assim, o novo Patriarca de Lisboa fez questão de o referir na entrada solene nas novas funções.


UMA ATITUDE RENOVADORA E ABERTA
Como lembrou Frei Bento Domingues, O.P., dominicano Yves Congar muito lutou e sofreu para publicar as suas investigações que punham em causa tabus, doutrinas e apologéticas que sufocavam a revisão teológica da sua história e impediam as reformas de que precisava para se abrir às outras Igrejas cristãs, ao universo das outras religiões e ao mundo contemporâneo. Nasceu em 1904 e faleceu em Paris a 22 de junho de 1995. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Montparnasse, ao lado da sepultura que evoca a vida do seu confrade e amigo, Marie-Dominique Chenu. A sua vida e a sua obra são uma fonte de inspiração, para quem ama a Igreja e luta para que nunca se esqueça que a sua lei, na graça do Espírito de Jesus Cristo. Elaborou a sua teologia – em constante evolução e revisão – a partir do centro da vida e da história da Igreja Católica, em diálogo com as outras Igrejas cristãs, em escuta do universo das religiões não-cristãs e das correntes que agitam o mundo. Nos anos 30, em face da crescente descrença e indiferença religiosa, sintetizou o seu diagnóstico perspicaz: a uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião. Acompanhou e marcou os grandes movimentos eclesiais que precederam o Concílio Vaticano II, designadamente no ecumenismo, na teologia do laicado e na reforma da Igreja. Congar afirmou: “As grandes causas que procurei servir chegaram ao Concílio: renovação da Eclesiologia, estudo da Tradição e das tradições, reforma na Igreja, ecumenismo, laicado, missão, ministérios”…


UM NOVO TEMPO
A nomeação de D. Rui Valério como novo Patriarca de Lisboa constitui motivo de alegria e de esperança num momento especialmente importante e exigente na vida da Igreja entre nós, perante inúmeros desafios marcados pelo período sinodal e pela necessidade de mobilizar energias no sentido de superar graves dificuldades recentes, de aproveitar o impulso das Jornadas Mundiais da Juventude e de apresentar à sociedade um sentido de renovação e de responsabilidade. É de bom augúrio a declaração do novo Patriarca segundo a qual se propõe dar à Igreja de Lisboa o que tem dado sempre ao longo da sua vida sacerdotal e como bispo: através da presença e da proximidade. “Vou ser um bispo da estrada, um bispo da rua, um bispo junto das pessoas. E é nessa ótica que vou concretizar e alinhar a minha ação”. Esta ideia de caminho, de atenção às periferias e de mobilização de todos, no sentido que tem sido dado pelo Papa Francisco, constitui um sinal forte e necessário.

A declaração solene feita no momento de entrada na diocese constitui um motivo de reflexão e de responsabilidade para toda a Igreja. «Tal como sempre, também hoje, à Igreja, incumbe a grave responsabilidade de indicar o verdadeiro alimento, a verdadeira água, e oferecê-lo. É essa a sua missão urgente». E não é por acaso que à presença necessária se junta o sentido da urgência. E continua D. Rui Valério: «Como já anotava o teólogo Yves Congar, acerca da pertinência da missão evangelizadora, conservando uma desarmante atualidade: “o nosso mundo já não está naquela espécie de harmonia e homogeneidade com a cultura católica, com os seus símbolos, com as formas de expressão católicas. Simplesmente é profano, secular, laico; é científico e técnico; mas também, cada vez mais, utilitário, hiper sensual, violento, afrodisíaco. Em larga medida é ateu, não porque esteja demonstrada a inexistência de Deus, mas porque se constrói cada vez mais fora da perspetiva de Deus e do seu culto. E Congar rematava: hoje, exigem-se gestos verdadeiros, uma palavra simples e verdadeira, sinais fortes e compreensíveis. Quer-se que a liturgia seja de Alguém, que seja expressão da sua alma e, por isso, que envolva e diga respeito à vida». E nesse sentido o Patriarca afirmou, no sentido do tom geral da Jornadas da Juventude: «Queremos ser Igreja Missionária que, ao estilo de Maria, se levanta apressadamente para a montanha do mundo e da humanidade.» Importa, assim, seguir um caminho audacioso e seguro, permitindo-nos exprimir gratidão e homenagem ao Cardeal D. Manuel Clemente, anterior Patriarca, pelo que realizou, pelas fecundas sementes que deixou e pelo muito que ainda tem para nos dar, na ação e no exemplo.


LEMBRAR A HISTÓRIA
Lembremos que Lisboa tem uma presença da Igreja Católica que vem dos primeiros séculos do Cristianismo. Foi elevada a metrópole eclesiástica, em 1393, tendo em 1716 o Papa Clemente XI, pela Bula de 7 de novembro, «In Supremo Apostolatus Solio», criado o Patriarcado de Lisboa, primeiro na Capela Real, em Lisboa Ocidental, estendendo-se em 1740 o referido estatuto a Lisboa Oriental. A decisão envolveu um acontecimento eclesial e régio. As razões que levaram o Papa a esta concessão inédita, diferente da de Veneza, que recebeu o título patriarcal já existente no Adriático, têm a ver imediatamente com a armada enviada por D. João V para deter o avanço turco no Mediterrâneo, seguindo um apelo insistente do referido Papa Clemente XI. A este facto, associa-se o zelo missionário de Portugal. Foi na verdade o auxílio prestado por D. João V ao Pontífice que decidiu a Santa Sé a reconhecer a importância da antiga capela real portuguesa. Assim a célebre embaixada do Marquês de Fontes (1712), enviada a Roma para defender o padroado português do Oriente e conseguir também o título patriarcal de Lisboa, obteve resultados positivos, graças ao auxílio político contra os turcos, que o Papa recompensou excelentemente. Pode dizer-se, contudo, que é o zelo missionário a razão decisiva para a permanência deste estatuto – que recorda os cinco patriarcados clássicos, Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém e se prolonga no Patriarcado da Índias Orientais, de Goa e Damão. O primeiro Patriarca de Lisboa foi D. Tomás de Almeida (1670-1754), notável teólogo, que veio do Porto para Lisboa, acompanhando D. João V até ao fim do seu longo reinado. Refira-se ainda, neste mês, o início do Ano Jubilar Vicentino, recordando o primeiro padroeiro da Cidade de Lisboa, São Vicente, cujas relíquias chegaram a Lisboa no dia 15 de setembro de 1173 e ficaram primeiro depositadas na Igreja de Santa Justa, sendo transladadas, no ano seguinte, para a capela-mor da Sé. Para assinalar a efeméride o Patriarcado de Lisboa, o Cabido da Sé e a Câmara Municipal de Lisboa concordaram numa série de celebrações comemorativas, em curso. 


Guilherme d'Oliveira Martins

À CONVERSA COM FREI IVO…


Minha Princesa de mim,


Foram bons os dias que passámos em Paris, ainda bem que pudeste vir ter comigo e partilhar concertos, exposições, infindáveis conversas. Antes de regressar ao Japão, ainda dei um pulo ao Saulchoir, por me terem dito que poderia encontrar-me com o Padre Yves Congar. Senti vontade de falar com esse dominicano - um verdadeiro mestre de teologia eclesial no Vaticano II, e não só - depois da conversa que tínhamos tido sobre a vocação militante e até missionária da tua irmã GM. É verdade que ela foi muito influenciada pelo seu amigo Cardeal Cardijn, mas entusiasmou-se sobretudo pela visão da Igreja como Povo de Deus (que se foi afirmando na sequência de um novo surto dos estudos da tradição bíblica e patrística sobre a continuação de Israel do Antigo para o Novo Testamento) e da função apostólica dos leigos, tal como apregoada por Pio XI (1922-1939), o Papa de Cristo-Rei, da Ação Católica e das missões... Sabes como sempre estive politicamente bem longe dos ideais demo-sociais da GM, mas não posso deixar de admirar a generosidade de carácter da jovem aristocrata que, às escondidas da família, se ia "vestir de operária" e trabalhar numa fábrica para iniciar uma das primeiras células da JOC! Foi quando te conheci, nos anos 20, tinha a tua irmã acabado o curso superior de assistência social, o primeiro em todo o mundo, na Rue de la Poste, em Bruxelas. E da JOC a missionária leiga no Congo, sempre por sugestão do Cardijn, foi um pulo. Por isso Pio XI a recebeu e agraciou e ela se casou tarde, que para freira não servia. Registo um comentário do Congar sobre esse apelo de Pio XI aos leigos: "Como já antes o tinham feito Leão XIII e Pio X, mas com renovada insistência, Pio XI convidou os leigos a tomarem a sua parte na missão da Igreja ou do seu apostolado. Isso não significava apenas a ação na ordem temporal, mas também atividades de evangelização e de testemunho. Se a Ação Católica oficialmente organizada supunha um certo "mandato" (palavra muito raramente empregue pelos papas), o apostolado leigo fundamentava-se na própria ontologia sobrenatural do cristão: batismo, confirmação, dons espirituais e carismas, dever de reconhecimento. O convite incansavelmente dirigido pelo papa a "participar no apostolado hierárquico" (Pio XII mudaria participar para cooperar) apoiou-se na revalorização do sacerdócio comum dos batizados". Nasceu frei Ivo (Yves Congar) a 13 de abril de 1904 na cidade de Sedan, naquela Alsácia-Lorena que alemães e franceses sempre disputaram. Talvez por isso - como Robert Schumann para a Europa - a sua vida tenha sido uma procura incessante da união das igrejas na Igreja universal. É curioso observar que aquilo que talvez seja o mais completo e brilhante tratado de eclesiologia, desde o Vaticano II - esse livro de frei Ivo intitulado "L’Église, de Saint Augustin à l´époque moderne" - tenha a sua primeira edição simultaneamente em francês e alemão: "Die Lehre von der Kirche von Augustinus bis zur Gegenwart". Essa publicação é recente, como sabes. O Padre Congar ia manuseando um exemplar dela, enquanto me falava da Constituição dogmática "Lumen Gentium", documento em que o Concílio Vaticano II definiu ou descreveu, pela primeira vez de forma sistemática e autorizada, a Igreja. Faz-se ali uma revisão e um aproveitamento do que de melhor a Igreja foi pensando de si ao longo de séculos, incluindo a forma que se afirmou no Vaticano I. "Mas, diz Congar, há uma libertação resoluta do assombramento da autoridade e da preponderância do jurídico, do societário, que pesava sobre a eclesiologia há século e meio. O concílio - acrescenta ele - fez a justiça de operar um recentramento vertical sobre Cristo e um descentramento horizontal sobre a comunidade e o povo de Deus...  ... Restitui-se assim a imagem de uma Igreja que comporta uma pluralidade de ministérios, segundo as missões, as tarefas, os carismas..." Sabes que tive a tentação de me meter pelo caminho da profissão religiosa, como vida de consagração a Deus e aos outros. Sem sacerdócio - sempre tive e tenho alguma reserva quanto a essa "unção" que nos chegou das religiões primitivas, nacionalistas, bairristas e concorrentes, que se organizaram hierarquicamente, com castas transmissoras dos poderes divinos... Sinto-me espiritualmente mais próximo, quer da mística dos primeiros eremitas e cenobitas, quer da "diakonia", do serviço da comunidade, do que do chamado "exercício do poder espiritual" (expressão que me arrepia). Será uma questão de sensibilidade, mas é assim. Opuseram-me, beneditinos e dominicanos, ao meu desejo de ser simplesmente um "converso", isto é, um "irmão-faz-tudo", a importância da minha educação e cultura, e a necessidade dela para a missão "pastoral" da Igreja, também chamada "seara do Senhor"... E, pensava eu, bem aventuradas são as mulheres que, desde as diáconas da Igreja primitiva - e mais próxima do ideal evangélico - sempre puderam servir com a humildade sublime da Mãe de Deus, sem se revestirem dos símbolos de poder que douraram os báculos dos bispos e puseram três coroas na cabeça do papa. Pois os ministros da Igreja, afinal, não devem ser reconhecidos no sentido político do que manda, mas no do que serve o evangelho. A própria administração dos sacramentos nunca pode esquecer-se desse conceito fundador que é o de Igreja-sacramento primordial, raiz e cultura (no sentido de ambiente vivificante) de todos os sacramentos - por isso mesmo missionária e medianeira para o mundo. Não quero nem posso negar a importância e necessidade dos gestos e dos ritos, para a fidelidade dos quais é certamente necessária uma qualquer organização eclesial. Mas quero, posso e devo dizer que aquilo a que habitualmente se chama "sacramentos" não são receitas médicas nem varinhas de condão. São sinais efetivos do primeiro sacramento do amor de Deus que é Jesus Cristo, cuja forma sacramental atual é a Igreja, seu corpo místico, animada, em cada um de nós, pelo Espírito Santo. Assim também, qualquer vocação monástica, por exemplo, é sacramento. Estar fora do mundo, para no mundo ser testemunho de Deus e medianeiro dos homens. É claro que frei Ivo me sorriu, com condescendência benevolente pela minha ignorância em matéria teológica. Mas também me falou mais - e muito generosamente - da essência da Igreja como sacramento e da importância da sucessão episcopal dos apóstolos na administração dos sacramentos dessa mesma Igreja. E nessa perspetiva esteve sempre presente, também, o seu carinho ecuménico. Em resposta às minhas interrogações sobre o acerto de decisões ou interpretações "dogmáticas" que uma hierarquia, nem sempre recomendável eticamente, foi fazendo ao longo da história, sacudiu por cima do ombro o escapulário do hábito branco e disse-me: "Olhemos para a frente. Temos conseguido, graças a Deus, com apoio em investigações científicas e históricas, compreender melhor a história que envolve a Igreja e a dela mesma - como pensamento e ação que se vão declarando na circunstância mutante do tempo, sejam eles da Igreja oficial ou de tanta gente que nela comunga mesmo quando a interroga... Aproximarmo-nos do sopro e da obra de Deus na história dos homens..." E apontou-me umas linhas do livro que tinha na mão. Conto-te o resto depois. Estou cheio de sono, isto é ciência de mais para a minha carruagem… Adeus, Princesa. "Num apontamento avulso, Camilo Maria vai tecendo considerações sobre ecumenismo cristão, diálogo inter-religioso e... a Europa no projeto de Robert Schumann e Jean Monnet! Curiosa analogia…

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

    Como prometido, vamos então descontraidamente procurar pistas que nos guiem num passeio histórico pelas institucionalizações humanas, mais ou menos ideológicas, "políticas", sempre canónicas, desse corpo místico cuja cabeça é Jesus Cristo, e é, no mundo, conhecido por assembleia ou Igreja dos seus fiéis ou batizados. Pelo Novo Testamento é esse povo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, o único sacerdote.

 

   Para frei (e cardeal) Yves Congar, a Igreja inicial, ou dos Apóstolos, continua no período dos mártires (não esqueças, Princesa, que mártir quer dizer testemunha) até à paz constantiniana (1ª metade do século IV); segue-se-lhe o período dito "monástico", de que te falei em carta anterior, que mantém o princípio da autoridade episcopal como fator de união, em osmose com a comunidade dos cristãos e com carácter acentuadamente carismático ou espiritual. Período definido até ao século XI. Volto a citar-te São Cipriano (2ª metade do século III): Tenho por regra, desde o inicio do meu episcopado, nada decidir sem o vosso conselho (de padres e diáconos) e sem o sufrágio do povo, algo que fosse só da minha opinião pessoal... E traduzo o comentário de Yves Congar:

 

   De facto, todo o povo eclesial, e especialmente os leigos, intervinha na eleição dos bispos e na designação dos ministros, nos concílios aonde levavam informações, e, finalmente, na criação dos costumes pelos quais as próprias comunidades regulavam em grande parte as suas vidas. Contribuição tanto melhor acolhida quanto, apesar de bem estruturada canonicamente, a Igreja primitiva se queria dócil às intervenções do Espírito Santo. Ora, é do agrado de Deus dar a conhecer a sua vontade através do mais pequenos ou menos considerados...

 

   Pergunto-nos, Princesa de mim, se, na atual instituição clerical da Igreja Católica, não acabaremos por estar mais próximos da igreja senhorial, a da classe social chamada "primeiro estado" na nomenclatura sociopolítica medieval (clero, nobreza e povo, lembras-te?), do que da inicial Igreja dos Apóstolos, já que com tanta pujança se mantém o uso - pode dizer-se o costume, a consuetudo - das designações dos ministros dos fiéis (diáconos, presbíteros e epíscopos, sejam bispos ou arcebispos) como títulos honoríficos e até graus de uma carreira de honras clericais. Assim, continuam a ser nomeados bispos ou arcebispos de dioceses desaparecidas, clérigos nomeados para funções (que, por vezes, nem pastorais são) na cúria vaticana ou, até, junto a entidades estranhas à Igreja. Esquece-se que diácono, padre, bispo ou arcebispo não são patentes nem sequer graus hierárquicos, são designações de prestadores de serviços das comunidades eclesiais. Ou, dito de outra maneira: no povo de sacerdotes que são os batizados, escolhem-se ou elegem-se (como é, claramente, o caso do bispo de Roma ou papa) pessoas preparadas para o exercício de certas funções da palavra, do culto, dos sacramentos. O conceito - e a respetiva prática socio-eclesial - de uma classe de batizados de primeira (também erradamente chamados, a meu ver, consagrados) gerou a praga do clericalismo, que é sentimento de si e atitude de presumida superioridade de quem pensa deter e poder dispor do poder divino na terra, sobretudo o de absolver erros e pecados, declarar nulidades, ou mesmo ainda o de, no passado, se terem pregado e justificado guerras religiosas. Parece-me indispensável erradicar este mal clericalista... Por isso mesmo penso também que é verdadeiramente justa e digna de louvor a disposição da Igreja denunciar às legítimas instâncias judiciais civis os crimes cometidos pelos seus ministros.

 

   Vai-se alongando esta carta e ainda não cheguei a falar-te de parte do pensarsentir que me inspirou a escrevê-la. Ficará para a seguinte. Todavia, deixa-me dizer-te agora coisas que, creio eu, poderão ajudar a melhor entendermos o que a seguir vier. Sobretudo na medida em que for capaz de te pôr a adivinhar outro rosto de uma Igreja que, sendo mais fiel àquelas que os Apóstolos fundaram, seja também uma comunidade do nosso tempo, mais livre de tantos rebocos e pinturas que lhe foram fazendo, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos da sua alma evangélica, para antes a encararmos como uma organização ideológica e jurídica de funcionários do sagrado  -  ou mesmo como um Estado transnacional, com sistema jurisdicional próprio e funcionalismo dispensador de passaportes para o paraíso...

 

   Recorro, uma vez mais, a Congar e ao seu Pour une Église servante et pauvre, livrinho que muitos consideram o "livro-programa do Papa Francisco". Refere-se a um artigo de Chateaubriand, publicado a 5 de Julho de 1824 e citado nas Mémoires d´outre-tombe, que diz assim (traduzo Chateaubriand): O tempo reduziu esta monarquia [a francesa] ao que ela tem de real : em política, já se ultrapassou a idade das ficções; já não se pode ter um governo de adoração, de culto e de mistério : cada qual conhece os seus direitos, nada é possível fora dos limites da razão, e até mesmo o favor, última ilusão das monarquias absolutas, é, como tudo o mais, pesado e apreciado nos dias de hoje. O teólogo e historiador dominicano transpõe assim a inspiração deste trecho:

 

   A sociedade moderna tende a construir-se sobre a razão, não sobre o sagrado. E pergunto se a Igreja operou a crítica correspondente, ou seja, a dessa parte de profano, de imperial, de feudal e de senhorial, que durante tanto tempo não só tolerou como buscou... Já não há Sacro Império, mas muitos títulos e insígnias, muitos cerimoniais ou ritos de visibilidade do seu prestigiado esplendor ficaram na Igreja... Não será já tempo, não haveria benefício nisso, de «sacudir a poeirada imperial que se foi depositando, desde Constantino, no trono de São Pedro?»

O dito é de João XXIII…

 

   Creio que nos será ainda útil respigar e traduzir mais uns trechos de frei Yves Congar, que nos ajudarão a melhor considerar certos aspetos ou facetas da Igreja que, sendo historicamente datados e circunstancialmente explicáveis, tendem muitas vezes a ser apresentados como traços essenciais da tal "Igreja fundada por Cristo"... Vou busca-los a um capítulo que aquele autor dominicano intitulou L’invasion du juridisme:

 

   Se interrogarmos os Padres [os Padres da Igreja, a Patrística] e a liturgia sobre o sentido que dão à Igreja, damos connosco num clima diferente do da eclesiologia moderna, pelo menos da que tem prevalecido nas escolas desde finais do século XVI ou quiçá começos do século XIV e a renovação atual [Vaticano II]. Essa eclesiologia das escolas mais não era do que a versão apologética de um tratado de direito público eclesiástico: só falava de poderes e direitos. Os Padres, a liturgia, falam de Igreja em termos de vida e comunidade espirituais, de Cidade santa, de combate espiritual do espírito contra a carne. Dela falam com os símbolos ou tipos dos patriarcas, de Rahab, a cortesã salva pela fita vermelha que põe à janela e pressagia a fé no sangue de Cristo, de Madalena, a impura que se torna pura, da Virgem Maria, mais feliz por ter acreditado do que por ter gerado Jesus Cristo... É que a Igreja deles é feita do conjunto dos homens que se convertem ao Evangelho. A sua eclesiologia inclui uma antropologia e os meios (sacramentos, regras de vida santa) pelos quais os homens podem viver na comunhão com Deus em Jesus Cristo.

 

... A alta Idade Média, e os grandes escolásticos, são ainda largamente tributários de tal perspetiva... Mas, pelo final do século XI, impõe-se a reforma gregoriana (de Gregório VII, papa): ... para operar a necessária conversão do clero, libertando-o do mal do nicolaísmo (incontinência) e sobretudo da simonia [transação comercial de bens religiosos] pela retirada da Igreja da sujeição a poderes laicos, reforçando a autoridade do papado e, consequentemente, a ação deste.

 

    Desta conjuntura surgirá necessariamente a procura e elaboração de um ordenamento jurídico da sociedade eclesial, donde o desenvolvimento do direito canónico cuja proeminência se revelará, por exemplo, no facto de que, após Alexandre III (papa de 1159 a 1181) e por dois séculos, quase todos os papas terem sido juristas, não apenas canonistas mas também doutores in utroque jure, isto é em direito romano e eclesiástico. Escreve frei Ivo:

 

   Esse desenvolvimento, essa ascensão do direito serviram sobretudo o papado nos conflitos com as potências seculares, conflitos esses que cobrem todos os «séculos de fé»: são os séculos da «cristandade», ou seja, esses em que, idealmente, os dois poderes são como os dois braços de um mesmo corpo, dois «ministérios» de uma única sociedade cristã...   ... É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV que se situa essa palavra de Gregório VII: «Ecclesia non est ancilla sed domina», "a Igreja não é serva mas senhora". Palavra que se deve entender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, ou a dominação, da potência temporal), mas que não deixa de ser embaraçosa, por representar, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare, "não dominar mas servir".

 

   Aqui te ficam umas pistas para tua reflexão - como também orientam a minha: na verdade, é a todos nós, cristãos batizados, que compete essa abertura ao Espírito Santo para, em comunhão, irmos renovando a face da Igreja...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Abraão e Moisés - afirmam hoje muitos conceituados investigadores - não terão tido, provavelmente, existência histórica, mas o que eles simbolizam e nos dizem da aventura da humanidade é indestrutível património nosso. Como Homero, que não sabemos quem foi, nem quantos eram...etc. Até a existência de Maomé não parece - dizem os especialistas - estar definitivamente comprovada. Mas o islão está aí e a umma diariamente o invoca como profeta de Alá. A realidade histórica de Jesus Cristo é aceite pela maioria dos historiadores hodiernos, mas tal não impede que haja ainda crentes adeptos de teses que negam a incarnação (Jesus é apenas Deus, sem condição humana, teoria aliás vinda da antiguidade cristã, e com alguma popularidade pelo correr dos tempos), tal como conheço incréus que defendem, cientificamente, a historicidade de Jesus de Nazaré. As teses propriamente "mitistas" - que encaram a pessoa de Jesus como mais uma representação de mitos antigos, de origem egípcia ou assírio-babilónica - surgem apenas na viragem do século XVIII para o XIX.  Por outro lado, muitas outras lendas e narrativas existem, desde as do Santo Graal a tantas outras, mais ou menos fantasiosas e romanceadas do que a desse cálice, relacionadas com hagiografias e muitas relíquias. [A mais rebuscada quiçá seja a que diz que o Graal é Maria Madalena, acolhedora do sangue de Jesus que transmitiria à prole de ambos...]  No século XIX, o romantismo apropriou-se de muitas delas, inventou outras, atirou-se à construção de histórias perfumadas de passado, na literatura como na ópera.  

  

  Voltando às Escrituras e à Tradição, um pouco ao que te disse já sobre textos canónicos e apócrifos, traduzo-te passos do brilhante ensaio de frei Yves Congar, no seu La Tradition et les Traditions, para depois nos debruçarmos sobre gnósticos e místicos. Esse teólogo e historiador dominicano mostra como o verbo grego paradidonai - em latim tradere - se pode aplicar à transmissão de escritos: o substantivo "tradição" rapidamente designou um ensinamento transmitido oralmente, distinto da Escritura. E todavia, o seu conteúdo era relativo à Escritura...   ... Essa tradição da Igreja é, em si mesma, oral. Se os apóstolos não nos tivessem deixado qualquer escrito, seria necessário e suficiente seguir a ordo traditionis por eles entregue àqueles a quem confiavam as comunidades. De facto, existem escritos apostólicos, porque os apóstolos pregaram primeiro o Evangelho, «depois, por vontade de Deus, transmitiram-no-lo nas Escrituras, para que se tornasse na base e coluna da nossa fé» (Sto. Ireneu). Existe também uma parte não escrita da tradição dos apóstolos...   ...Na perspetiva dos fiéis dos séculos II e III, pouco importava que a transmissão fosse puramente oral, desde que se verificasse a única relação que contava, a única que era uma garantia de autenticidade: as Igrejas receberam-na dos apóstolos, os apóstolos de Cristo, Cristo de «Deus». Congar, aliás, já lembrara a doutrina de Santo Ireneu: «A verdadeira gnose é o ensinamento dos apóstolos, plano antigo da Igreja à dimensão do universo, e marca do Corpo de Cristo que consiste na cadeia de sucessão pela qual os bispos puseram a Igreja em cada lugar: a explicação mais completa das Escrituras que até nós chegou, sem alteração, acrescentamento ou subtracção»... Assim, penso eu, se deve colocar a aprovação canónica dos textos circulantes que a Igreja reteve: na tradição apostólica e no debate e acordo conciliar. Não é ditadura. Diz frei Yves Congar, citando um trecho dos Atos dos Apóstolos (8, 30-31): «Compreendes o que lês?» pergunta Filipe ao eunuco da Candácia. «E como poderia, se ninguém me guia?» Os guias são os apóstolos que, discípulos do Mestre, também receberam o seu Espírito, e aos quais ele abriu o sentido das Escrituras (Lucas, 24, 45). Jesus dissera que os apóstolos espalhariam a fé começando por Jerusalém. A Igreja antiga, sabemo-lo, concebia-se a si mesma como a realidade dessa invasão do mundo a partir da nascente apostólica.

 

 

   Em próxima carta voltaremos, por Jerusalém, aos Templários.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira