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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TÃO IMENSA LUZ ME ALUMIA…

 

Minha Princesa de mim:  

 

Estou muito cansado, esta noite tem-me trazido mais motivos de inquietação, antes merecesse eu uma carícia que me trouxesse sombra de sono e de paz...  Que consolação poderei eu levar a outros, se não tenho nenhuma? De que me vale querer que se queira bem à alegria e se deseje a esperança, quando se insiste na permanência da ruína e na inexistência de janelas? Estendo a mão, e ela fica aberta, empalidecendo com o meu sorriso que nela me entregava. Era meu esse sorriso, é sempre minha a mesma entrega, minha essa mão suspensa, como quem respira em apneia. Recolho-me e penso nessa amiga que me falava da ausência, como se por ela marcasse presença. Presença mesmo, querida amiga, é só aquela muito íntima que trazemos, misteriosamente, no coração. Não há outras. As ilusões são óptimas, excitantes os desejos e projectos, tudo muito múltiplo, convencional, aldrabado e agradável, perfumado ou religioso... Mas verdade, verdadinha, certeza mesmo, é esta fidelidade, não ao próprio ser (cada um se apropria do que quiser), mas ao ser mesmo. E ser mesmo não é propriedade de ninguém. É despojamento: porque sendo, eu mesmo, nada, ninguém se apropriará de mim... Ocorre-me esse poema de um-dois versos de Ungaretti: M´illumino d´inmenso... que eu traduziria por tão imensa luz me alumia... porque, na verdade, eu não tenho luz capaz de me alumiar, só uma outra, estranha, misteriosa, claridade me inundará o caminho. Só nu de tudo, oferecido à transparência  --  que, quiçá, me fere muito  --  me poderei valer em meu sentido. Decorei, no texto grego original, recitei, no texto latino da vulgata de São Jerónimo, o prólogo do evangelho segundo São João: No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus... Concluindo: ... Nunca ninguém viu Deus; o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, esse o deu a conhecer. Sabes que sempre considerei este texto um dos maiores de toda a literatura universal: E o verbo se fez carne e habitou entre nós, e contemplámos a sua glória, glória que deve a seu Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade... O evangelho de São João é o meu preferido, talvez pelo discurso directo, pelo testemunho da clarividência. Dizem os especialistas, que é , dos quatro canónicos, o que andará mais perto da verificação histórica. Pouco me importa. Para mim, é sobretudo um texto que respira verdade. Não somente a possível em afirmações teóricas  --  como o que é dito no belíssimo prólogo  --  mas no testemunho de factos que, contados de outro modo, seriam fabulosamente inacreditáveis. E, todavia, na narrativa joanina, eles ganham uma coerência consistente com uma afirmação inicial de fé. Assim, o verbo que se fez carne e habitou entre nós, é o mesmo Jesus que ressuscita Lázaro, porque, como diz a Marta, irmã do defunto, Eu sou a ressurreição e a vida... E porque Marta acreditou que Ele era o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo, Jesus comoveu-se profundamente e perturbou-se. Depois perguntou. «Onde o pusestes?» Responderam-lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus. «Vede como era seu amigo». E eu vou acreditar que Jesus, esta noite, chorará comigo. E que amanhã será um novo dia. E dou-te uma mão surpreendentemente serena.

 

Camilo Maria

   


Camilo Martins de Oliveira 

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