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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TAO YUANMING: O POETA DA RECLUSÃO ENTRE O TEMPO E AS COISAS

 

A minha gratidão a Manuel Afonso Costa por mais esta tradução que me permitiu ir a este caminho de passado procurar regressos e futuros.

 

Sabe-se que Tao Yuanming (365-427) é o alicerce fundamental dos grandes clássicos da literatura chinesa e um dos maiores poetas chineses. Pela mão de um amigo francês, chegou-me a leitura deste escritor sagrado. Agora, lendo em português, por tradução de um poeta, melhor se entende o quanto a poesia é uma receção única ao entendimento das realidades, graças, sobretudo, à sempre nova e singular luz que aporta à verdade.

 

Lê-se que Tao Yuanming nasceu numa família aristocrática empobrecida, cresceu e envelheceu pobre, sempre pobre, ainda que nunca tenha descuidado a afirmação:

 

«Não voltarei as costas aos meus princípios por cinco alqueires de grão.»

 

Por esta razão preferiu viver como agricultor e passar fome, do que seguir uma carreira de funcionário, repelindo assim a corrupção generalizada. Retirado com a sua família para uma aldeia, numa pulsão pelo campo, nela escreveu poesia e prosa e cultivou os crisântemos inseparáveis dos seus versos. Os crisântemos representam o Outono quando as outras flores já murcharam e representam igualmente um comportamento ético do homem livre que se distingue na honra. Um comportamento que assenta na natureza e não se compromete com o ilusório.

 

O vinho também foi caminho que o não perdeu, antes jeito de intransigência e de serena solidão, jeito mesmo de compreender um desfrutar das manhãs às quais as pessoas vulgares não agradecem de tão confusamente viverem.

 

Tao Yuanming soube como refletir sobre a passagem do tempo, o seu significado, a transitoriedade da existência, a morte, e afinal o conhecer do saber valorizar o tempo que passa, ou a vida depressa não caminhasse para o nada.

 

Já tinha lido e ficado maravilhada com as palavras de Tao

(…)

eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

A verdade é que este poeta maior atravessa a vida pedindo comida emprestada para sua mulher, seus filhos e para si enquanto escreve

 

(…) o lugar onde moro (…)
onde tenho uma casita com aposentos vários
(…) no coração da casa nem uma nódoa
não cabem tumultos onde o silêncio mobila os quartos
tanto tempo estive em cativeiro
que alegria por voltar ao campo
(…) durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

 

(…) O grande oleiro não concede favores particulares
dentro do complexo mundo das coisas,
cada uma por si só cresce e se distingue
se o homem prospera, entre céu e terra

 

(…) Se o frio e o calor se sucedem sem parar,
o mesmo acontece com a fortuna dos homens
tudo isto me parece óbvio,
por isso sabiamente se retira
aquele que para a vida despertou.

 

Creio que é pouco dizer que com este livro se reencontra o espanto. E é pouco realmente porque julgo que se encontram muitíssimas realidades que nos levam a não nos atrevermos a procurar o caminho de modo “banal”, como muitos que viajam, viajam, viajam de modos vários para procurar verdadeiramente o quê? E se a esta pergunta se atrevem, nela reside a coragem de sobreviver à resposta com dignidade, a dignidade de continuarmos inteiros na pobreza de cada um, e isto também nos propõe Tao Yuanming.

 

Depois, depois, diria:

 

Sei que o lume da lareira vai apagar-se não tarda nada e de fontes de flores ainda só conheço a dos plátanos.


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Este livro pela Assírio & Alvim, na coleção Gato Maltês, 2019 - Poesia e Prosa de Tao Yuanming