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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

"UM DEMÓNIO CRÍTICO E IRÓNICO".

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Falar de cultura em tempos de crise não pode significar uma fuga à realidade. Estamos no centro das preocupações fundamentais que devem situar-se na ordem do dia da cidadania ativa. É a democracia que está em causa – num tempo em que a «legitimidade do exercício» se tornou mais importante do que nunca. É preciso encontrarmos caminhos para que a confiança e a coesão social, a verdade e a justiça sejam sentidas pelas pessoas. De que estamos a falar? Antes do mais, de um triângulo envolvendo Educação, Ciência e Cultura. A ligação entre as três realidades é fundamental. Sem o valor da aprendizagem e a capacidade de transformar a informação em conhecimento, sem ideias claras e distintas, sem o trabalho e a exigência, não combateremos a mediocridade. É uma questão de sobrevivência. O sentido crítico, a investigação e a experiência, a cooperação científica, a avaliação, a relevância e a comparação internacional são caminhos contra a irrelevância. Sem a ligação entre as Humanidades e a investigação científica, sem o diálogo entre as artes e o conhecimento, sem a defesa do património histórico, sem atenção à contemporaneidade, não haverá desenvolvimento humano digno desse nome. 

 

Não se caia na tremenda armadilha do «fatalismo do atraso» ou da condenação de tudo o que se fez. Sempre que nos acomodámos decaímos. Se avançámos na educação e formação temos de prosseguir, percebendo que nunca há conhecimentos a mais. Nos últimos quarenta anos, progredimos bastante – mas importa continuar, com exigência redobrada, já que o mundo não esteve à nossa espera. Precisamos de pôr os olhos no que de melhor se faz noutros países – apostando na colaboração e no intercâmbio, com aproveitamento dos nossos jovens que partem, e que serão auxiliares preciosos para uma internacionalização de qualidade. A nossa inserção na União Europeia deverá, por isso, ser proactiva e não meramente defensiva. Daí que as saídas económicas, o rigor financeiro público, o governo económico europeu e o desenvolvimento sustentável com justiça distributiva obriguem a valorizar a qualidade da democracia e a criação cultural. E temos de insistir na importância das Humanidades, não fechadas nos salões, mas capazes de compreender os caminhos novos do pensamento e da ciência. 

Ao entrar na celebração dos setenta anos de vida (!), o Centro Nacional de Cultura (CNC) tem procurado ser fiel ao espírito dos seus principais artífices: Sophia e Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles, António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva ou José-Augusto França. Importa compreender o que um dia disse Vasco Graça Moura sobre o facto de o CNC fazer duravelmente o que tantas vezes o Estado não consegue. Lembremo-nos da Convenção do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural, da experiência pioneira das rotas culturais, do património imaterial da UNESCO, do «Poems from the Portuguese», do «Disquiet», dos «Portugueses ao Encontro da sua História» (de que «Na Senda de Fernão Mendes», Gradiva, 2014, é uma memória breve)… Isto, sem falar da importância do teatro de Fernando Amado e Almada Negreiros, da Casa da Comédia, de António José Saraiva, de Eduardo Lourenço, da tradição de «O Tempo e o Modo» e de «Raiz e Utopia»… De facto, a cultura não se confunde com jogos florais. Obriga a pôr a cidadania e a dignidade humana em lugar primeiro, e a garantir que o poder democrático prevaleça sobre os interesses económicos. Precisamos de apostar na qualidade e na justiça, por isso Bobbio falou-nos da liberdade igual e da igualdade livre. Como disse Eduardo Lourenço: «a cultura – mesmo a mais excitante – não é um fim em si mesma. Precisamos de um demónio crítico e irónico para nos ajudar a viver com menos delírio e euforia…» («A Nau de Ícaro», 1999). Em tempo de crise, falar de cultura, de ensinar e aprender e da investigação científica, a serio, é procurar, no fundo, caminhos de Renascença…

 

Guilherme d’Oliveira Martins