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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um exemplo de modernidade arquitetónica: O Centro Cultural do Cartaxo


Temos aqui alternado a referência aos teatros “históricos” com os grandes centros de espetáculos construídos a partir do final do século XX/início do século XXI: e alternando ainda com aquilo a que chamamos geração dos cine-teatros,  dominante a partir dos anos 40/50 até hoje, e como tal,  ainda representativa de  parte considerável da rede de salas de espetáculo pelo país fora. E de facto, o que mais interessa é, precisamente, esta simultaneidade arquitetónica, urbana e cultural, que inclusive valoriza, e de que maneira, o grande interior do país.

 

Acresce que muitos dos centros de atividade cultural e de espetáculos são polivalentes: valem pela atividade, mas valem também pela qualidade e modernidade arquitetónica. Em muitos e muitos casos, valorizam os centros urbanos respetivos. E sobretudo, trazem uma potencialidade cultural e recreativa que, precisamente pela polivalência, mais qualifica os meios urbanos e a vida e cultura das populações.

 

O Centro Cultural do Cartaxo, que hoje aqui evocamos, é inaugurado em 2005, no local do antigo Cineteatro Ribatejano, este inaugurado em 1947 e demolido em 1988. E ainda se acrescenta que o Centro Cultural pode e deve ser referido numa perspetiva de celebração dos 150 anos de nascimento de Marcelino Mesquita (1856-1919), como bem sabemos dramaturgo marcante no início da renovação do teatro português e não só.

 

Natural precisamente do Cartaxo, onde nasceu e criou grande parte da sua vasta obra, Marcelino Mesquita desenvolve atividade política como deputado republicano numa época ainda pouco propícia (1890-1892). Mas sobretudo, no que aqui nos ocupa, escreve para cima de 30 peças de teatro, percorrendo e modernizando os géneros então (e ainda hoje) dominantes, do teatro histórico ainda próximo do romantismo ao realismo-naturalismo algo percursor, da comédia ao drama, do teatro em verso à opereta. Alem de mais uma obra literária válida e variada.

 

Duas das peças situam-se na região, como tal aliás identificadas nas notas de cena: “O Auto do Busto” (1899) em “Uma charneca no Ribatejo”, e “O Tio Pedro” (1902) em ”a casa de fora de um casal remediado no Ribatejo”. (cfr. “Teatro Completo”, de Marcelino Mesquita, pesquisa, organização e introdução de Duarte Ivo Cruz, ed. INCM 2006/7).

 

E tudo isto permite-nos dizer que não seria deslocado designar o Centro Cultural do Cartaxo como Centro Cultural Marcelino Mesquita…

 

Até porque o Centro em si mesmo, na sua qualidade e modernidade arquitetónica e funcional, e também pela localização privilegiada, junto à Camara Municipal, à Praça de Touros, ao Mercado e ao Tribunal, integra e valoriza o centro urbano, que constitui, como se vê, um verdadeiro centro cívico. E até se denomina Centro…

 

O Centro Cultural do Cartaxo é um projeto dos Arquitetos Cristina Veríssimo de Diogo Burnay. E desde logo se destaca pela harmonização de uma linha arquitetónica, notavelmente moderna, com a urbanização mais tradicional do centro em que se implanta: e note-se que o termo “tradicional” comporta aqui modernização e heterogeneização.

 

A recetividade local foi merecidamente elogiosa. Tal como escrevemos em estudo editado pelo Centro Nacional de Cultura, “tratava-se de encaixar um edifício de porte, com duas salas de teatro e demais espaços culturais, na escala urbana dominante, o que é em si muito meritório. E a solução foi destacar a sala principal, situando-as sobre o foyer numa saliência arquitetónica que se lança sobre a rua e cria, através de janelões, uma simbiose entre o interior do teatro e o espaço urbano envolvente” (cfr. “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” ed.  Mediatexto e Centro Nacional de Cultura, 2008 pag.94).

 

E efetivamente, o edifício impõe-se pela arrojada originalidade da sua expressão arquitetónica. Desde logo, porque a fachada envidraçada confere uma original “participação” de quem transita, valorizando em si mesmo o interior do Centro. E é de realçar a dualidade das salas, que permite uma maior adequação do relacionamento publico/espetáculo, essência afinal de um edifício exatamente vocacionado para espetáculos em direto…

 

A lotação da sala maior é de 330 lugares, a da sala mais pequena, de 90 lugares. Tal como escreveu Maria do Rosário Salema de Carvalho, “o edifício tira partido da utilização combinada das superfícies envidraçadas e dos volumes em betão, ganhando especial significado o elemento que se projeta sobre a fachada principal e que corresponde, no interior, à zona da reggie pois a sala maior encontra-se suspensa sobre o foyer”. (in “Portugal Património” dir. Álvaro Duarte de Almeida e Duarte Belo vol.VI, ed. Círculo de Leitores 2007, pag. 234). 

 

E é de realçar que do exterior pode ver-se grande parte da zona de público: só não se pode ver, obviamente, a zona do palco!

 


DUARTE IVO CRUZ