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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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WHAT ELSE?

 

Minha Princesa de mim:

 

Comecei esta carta para começar o dia, tão lembrado de ti acordei hoje. E pensossinto-te como certeza. É certo que certeza e acerto não são necessariamente coincidentes: posso ter a certeza e desacertar, como acertar sem estar certo do meu acerto. Mas enquanto este é uma relação objectiva (e, portanto, convencional), a certeza é uma convicção subjectiva (e, portanto, moral). Sendo íntima, tem a grandeza de ser autêntica e fiel. O nosso Alberto gostava de repetir um passo do Fradique Mendes, de Eça de Queiroz: Fradique fala de um polaco, G. Cornuski, professor e crítico, que escrevia na Revista Suiça, e que (diz Fradique) "constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito decidido, rebelar-se contra obras de Literatura e de Arte que a unanimidade crítica, desde séculos, tem consagrado como magistrais... Mas sempre que a sua probidade de professor e de crítico lhe impunha a proclamação da verdade,este homem robusto,sanguíneo, que heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava: «Não! Porque será o meu critério mais seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez nessas obras exista a sublimidade  --  e só no meu espírito a impotência de a compreender». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepúsculo de Outono, continuava, diante dos coros da Atália e das nudezas do Ticiano, a murmurar desconsoladamente: «Como é belo!». Raros sofrem estas angústias críticas do desditoso Cornuski. Todos, porém, com risonha inconsciência, praticam o seu servilismo intelectual...  ... O homem do século XIX, o Europeu, porque só ele é essencialmente do século XIX (diz Fradique numa carta a Carlos Mayer) vive dentro de uma pálida e morna infecção de banalidade...

Eu acrescentaria que hoje, já neste século que é o nosso, a essa infecção se juntou o seu efeito: o triunfo generalizado da vulgaridade. Vêem-se, ainda e felizmente, muitas excepções: jovens estudiosos e investigadores, criadores e intérpretes de várias artes, pais e professores dedicados à educação (a libertarem, para a sua realização mais plena, as capacidades das crianças e jovens), monges e missionários, artesãos e operários conscientes e capazes, movimentos de solidariedade social, de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos... Mas a cultura prevalecente vai sendo aquela que os meios de informação social e publicidade todos os dias vão desenhando e impondo, guiados apenas pelo objectivo do ganho monetário máximo com um mínimo de conteúdo espiritual e esforço crítico. Esquece-se a máxima milenária de Plotino (270 a.C.): A inteligência é o pensamento que se desvia das coisas inferiores, para elevar a alma para o que é superior. Pelo contrário, ocupa-se a gente por aí a satisfazer o mais imediatamente fácil, sem espírito crítico nem elevação. À riqueza das diferenças  -  pelo que representam em diversidade e esforço  -  prefere-se a pobreza da banalização soez de "ideias" (?) e comportamentos induzidos pelo repetido apelo à facilidade saciadora. Os heróis hodiernos ou, melhor, os que como tais nos são apresentados e sugeridos, são deuses pagãos, cheios de dinheiro, de sexo e de cosmética. Escamoteia-se a virtude  -  que é a força dos que se engrandecem, humanizando-se  - mesmo ao falar-se de desportistas ou artistas de renome, exagerando-lhes o glamour, e calando o esforço disciplinado com que conseguem os seus resultados, tantas vezes incautos e explorados. A liberdade, que é necessariamente responsável, é apregoada como libertinagem caprichosa e irresponsável. A igualdade, que é o reconhecimento da mesma condição e dignidade em todos, é procurada pela facilitação do rebaixamento, não pela promoção da excelência. A fraternidade fica assim de fora do circuito, mas, graças a Deus, continua a ser profética: por todas essas mãos que por aí se vão estendendo à diferença dos outros, à indigência de muitos, ao amor de todos. Bem hajam! Não sou elitista, nem saudosista, nem pessimista. Acredito no triunfo do bem, na recompensa do esforço, creio, profundamente, que a glória de Deus são os homens de boa vontade.  Mas desabafos de velho, resmungo muito contra o que me parece tão estúpido, que me magoa e cansa... Tivesse menos 50 ou 60 anos, iria para remotas paragens, trabalhar com quem será pobre pelos industrializados critérios e estimativas, mas solidariamente sabe construir comunidades de partilha e justa convivência. Ou talvez ficasse pela nossa Europa, aprendendo com grupos cheios de esperança inovadora, que é possível e desejável consumir menos e amar mais, muito mais... Enfim, dirás tu, fantasias de velho... Mas deixa-me que volte a esse sonho. Sonhar é fácil  -  diziam-nos na nossa juventude. Creio que não: sonhar é necessário, muitas vezes difícil. Desesperado será, valha-nos Deus!, o sonho do pobre que nada lhe traz... Mas mesmo a esse teremos moralmente de recorrer, para ganharmos a força que o nosso comodismo não nos deixa ter. Perguntaste-me certo dia se acredito na vida eterna, quando tantos crêem na metempsicose e na reincarnação, no regresso à matéria natural, ou em coisa nenhuma... Respondi-te lembrando o monge Zózimo do Dostoievsky, que ensinava que cada um de nós tem, na sua vida, uma oportunidade para amar. Se a agarrarmos, aí começa, digo-te eu, a vida eterna.  Só o amor é eterno, e Deus é amor. Bem sei que, para ti, misturo tudo, sou um velho tonto que pensa cavalgar corcéis só por andar aos saltinhos de ideias... Mas sou visceralmente fiel ao meu pensarsentir que tudo é graça sempre que, nesta vida, agarramos a mão invisível de Deus e nos deixamos conduzir pelo querer bem. Não sou fã de cânones, desconfio de canonizações, sobretudo de muitas que por aí ultimamemte se têm feito... Jesus Cristo nunca gostou de ouvir discípulos discutir sobre quem seria maior... Acredito, sim, na comunhão dos santos, na santidade escondida dessa miríade de mulheres e homens de boa vontade, que, no silêncio das suas vidas, e na alegria íntima dos seus corações, deram o que lhes pedia o amor dos outros. E não é esse o amor de Deus? Nenhum de nós tem o direito de julgar os outros para a eternidade. A justiça dos homens é certamente necessária, as sociedades só se governam por normas objectivas (convencionais). A justiça de Deus é de Deus só, os homens só a conhecem, cada um, em sua consciência (moral). Repito só, pois só com os outros sou responsável perante Deus. Olho para dois postais que nunca tinha visto juntos: comprei-os, um no Guggenheim Museum, em New York, outro no Museu da Cidade de Kobe, no Japão, com um intervalo de vinte anos. O de New York reproduz um Picasso de 1900, o Moulin de la Galette; o de Kobe, sensivelmente contemporâneo, é O Baile, de Hashimoto Chikanobu. Diferentemente iluminados, respondendo também a conceitos e preconceitos, ou a destemores e temores éticos e estéticos diversos, um no outro se reconhecem. Lembrado do japonisme na Paris de 900, e da moda ocidental no porto aberto de Kobe, com as suas gravuras coevas... Não sei quem copia quem, nem se alguém copia... Só Deus sabe. E fico assim feliz, recitando a oração com que, todas as noites, resumo o dia e a vida: In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum... What else? Assim fica a minha mão na tua.

 

                Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 

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